Há menos primeiro-ministro no Governo

Opinião

Texto publicado no Dinheiro Vivo

Onde está o Paulo Portas hábil, o político esperto e inteligente? O problema pode – deve – ser meu, admito, mas, nos últimos tempos, mais concretamente, desde a triste irrevogabilidade do agora vice-primeiro-ministro, que não sei por onde anda esse Paulo Portas.

A conferência de apresentação que fez de apresentação dos resultados do oitavo e nono exame da troika foi só o último ato falhado deste governante. Falou, falou, fez questão de conduzir a conferência e não disse nada, não explicou, remeteu a ministra das Finanças para um papel secundário, quis mostrar que manda, e agora, as medidas de austeridade, as mesmas que Paulo Portas garantiu que não existiam, são testadas nas páginas dos jornais.

Sim, a ideia que passa é a de que este Orçamento do Estado, aquele pelo qual os mercados anseiam, foi tudo menos bem estudado.Improviso parece ser, neste momento, o nome do meio de Paulo Portas.

Não é de incerteza que Portugal precisa, é, antes, de confiança no Orçamento do Estado para o próximo ano, aquele em que, supostamente, Portugal ficaria livre da troika de credores.

E tudo isto acontece com a permissão do primeiro-ministro. É com a permissão de Passos Coelho que existe menos ministra das Finanças neste Governo, que existe, inclusive, menos primeiro-ministro neste Governo.

Passos nunca primou pela liderança forte, nunca se sentiu que este primeiro-ministro dirigisse com pulso o seu Governo, mas, ultimamente, a situação agravou-se. Com a saída de Gaspar, que era uma espécie de primeiro-ministro das Finanças, e com a promoção de Portas a porta-voz do Governo nas relações da troika, assumindo, assim, uma série de funções conflituantes com as de Maria Luís Albuquerque, já para não falar na derrota nas Autárquicas e da polémica que envolveu Rui Machete, a fragilidade deste Executivo está posta a nu.

É assim que Passos Coelho quer concluir a legislatura e governar mais dois anos?

Tudo na mesma, graças a Gaspar e Portas

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Opinião

Os juros da dívida pública portuguesa, ou melhor, as yields, mantém-se acima dos 7%, alheios às boas notícias vindas dos Estados Unidos – a Reserva Federal norte-americana anunciou na semana passada que vai manter o programa de compra de ativos, surpreendendo os investidores, que esperavam uma redução do estímulo monetário à economia.
Este acontecimento animou os mercados, um pouco por todo o lado, e influenciaria também, de forma positiva, a evolução das taxas de rendibilidade das obrigações nacionais, se Portugal não estivesse mergulhado numa crise política, que começou em julho, com a saída de Gaspar e a demissão “irrevogável” de Paulo Portas e, infelizmente, ainda não passou.

Não passou, porque a demissão de um ministro das Finanças e a demissão de um ministro de Estado, parceiro de coligação, que à última da hora, dá o dito por não dito, não se resolve com meras substituições, ainda por cima, por uma ministra frágil, enredada em meias verdades, ou meias mentiras, ou com visitas de cortesia a Bruxelas e Washington, ou ainda com pedidos de flexibilização das metas do défice para 2014.

É esta a crise que importa aos mercados e aos investidores, como importou o chumbo do Tribunal Constitucional às medidas propostas pelo Governo de Passos Coelho e o receio de que novos chumbos se sucedam, como importam os muitos riscos que o Orçamento do Estado possa conter, como também importa a voz cada vez mais dissonante dos partidos da Oposição, como até importa o resultado das eleições autárquicas do próximo domingo (uma derrota esmagadora do PSD pode ser um péssimo sinal de mais instabilidade política).

Portugal está demasiado envolvido na sua crise política para sair beneficiado do que de bom acontece lá por fora. Os mercados, como já se sabe, não perdoam, pelo que, pelo menos, até à aprovação do Orçamento do Estado 2014, tudo deverá ficar como está, ou seja, mal.

Estou aqui no Facebook e aqui no Twitter

“Eles”, a vossa tia!

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Nestes dias de greve geral, há uma coisa que me deixa triste e ao mesmo tempo irritada, que é o embate entre os que fazem greve e os que decidem trabalhar, a desconsideração com que se tratam, sempre na terceira pessoa do plural.

Simplificando, para os que não aderem à greve, os outros, “‘eles’ fazem greve e nós é que nos #$”&%$/&”. Já para não referir que alguns acreditam que os que optam pela greve, ‘eles’ são uns preguiçosos que gostam é de aproveitar o dia para ir à praia.

E há o fenómeno oposto, o dos grevistas, que acham que ‘eles’ – os que decidiram trabalhar – são uns fura-greves, que, basicamente, não merecem a liberdade que respiram e que, como tal, mais valia era abdicarem, logo à cabeça, de certos benefícios obtidos à custa dos sacrifício dos outros.

Existem, felizmente, muitos entre uns e outros, são a maioria, quero acreditar, os que entendem que fazer greve é um direito tão legítimo quanto não fazer greve. Mas como nos dias de greve geral somos submetidos a entrevistas de rua de meia em meia hora, à cadência dos telejornais, e as redes sociais amplificam a realidade, dizem os especialistas, de forma distorcida, o conflito parece mesmo gigante.

Para quem ainda não entendeu, as coisas mudaram: nem fazer greve é um exclusivo da esquerda, nem os que decidem trabalhar quando a maior parte do país pára estão com Passos Coelho e Vítor Gaspar.

Existem, obviamente, muitas razões que pesam na decisão de fazer ou não greve. Um dia a menos de salário pesa, as retaliações por parte do patrão ainda existem, ou seja, a decisão não é só coragem, convicção e ideologia.

Valorize-se a importância do direito à greve, do direito ao trabalho, do direito a escolher, da capacidade de pensar e de decidir. Até amanhã!

Portas não risca nada

Opinião

Artigo publicado no Dinheiro Vivo

Paulo Portas, líder do CDS-PP, quis entusiasmar o seu país e prometeu defender no Governo, do qual faz parte, a descida do IRS ainda nesta legislatura, ou seja até 2015.

“No plano fiscal, a maioria deve estabelecer um calendário e objetivos firmes, para, após a reforma do IRC, iniciar, ainda nesta legislatura, o desagravamento fiscal em sede de IRS”, disse Portas esta semana na apresentação da moção que formaliza a sua recandidatura à liderança do partido.

Ninguém se queixou, como é óbvio. Uma redução do IRS traduzir-se-ia em mais dinheiro na carteira das pessoas e isso seria meio caminho andado para a economia despertar deste sono maldito (o consumo juntar-se-ia às exportações para fazer subir o PIB).

Neste caso, até trabalhadores e patrões estão do mesmo lado. As empresas querem é que os consumidores aumentem o seu rendimento disponível e o consumam, gastem, pois assim, conseguem aumentar as suas vendas, quem sabe até conseguem investir e empregar mais pessoas. Nem na oposição, houve críticas, ninguém questiona as vantagens, neste momento, de um alívio da carga fiscal, a começar pela queda do imposto sobre o rendimento.

Acontece que Paulo Portas sabe muito bem que entre o querer, o dever e o poder vai uma enorme distância. Como o próprio dizia no texto da mesma moção: “É condição para esse desagravamento o equilíbrio com a disciplina orçamental e daí decorre a necessidade de redução da despesa ser consistente”.

Portas sabe muito bem que, dificilmente o Governo conseguirá recuar na política de austeridade e que, perante as metas orçamentais previstas a margem para cortes nos impostos é muito curta. Uma eventual flexibilização por parte da troika servirá apenas para atenuar os efeitos da recessão e para facilitar os cortes na despesa que, na opinião de alguns, não são exequíveis no calendário acertado.

Por isso, Paulo Portas falou mas o país ficou na mesma, ninguém se entusiasmou porque, simplesmente ninguém o levou a sério. Foi Portas, recandidato a líder do CDS-PP quem defendeu a descida do IRS, mas se tivesse sido Portas, o ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros teria sido igual. Quem decide se o IRS vai ou não baixar esta legislatura será Vítor Gaspar e a opinião de Paulo Portas contará pouco ou nada para este campeonato.

“Não gastei um tostão em obras desnecessárias”

Joaquim Ferreira do Amaral, presidente da Lusoponte

Entrevista Joaquim Ferreira do Amaral

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

Foi secretário de Estado de Maria de Lurdes Pintassilgo e de Pinto Balsemão e foi ministro do governo do Bloco Central de Mário Soares e nas duas maiorias absolutas de Cavaco Silva. Na política, foi ainda candidato à Câmara de Lisboa e à Presidência da República, contra Jorge Sampaio. Em 1994, enquanto ministro das Obras Públicas de Cavaco, enfrentou a fúria popular no buzinão da ponte 25 de Abril e, mais tarde, foi o responsável pela decisão da construção da Vasco da Gama, concurso que viria a ser ganho pela Lusoponte, que 12 anos depois viria a presidir.

As sondagens mostram que a maioria formal que existe no Parlamento já não tem correspondência com a população. O que é que espera de Cavaco Silva, com quem trabalhou 10 anos?
Julgo que o Presidente vai continuar a fazer o que tem feito, isto é, não ser ele a acelerar uma agitação política que, no meu ponto de vista, não seria útil nesta fase. Portanto, vai tentar preservar o governo naquilo que puder e deixar que o calendário político siga o seu curso normal. Quando chegar a altura das eleições logo se vê. Para já, fazer uma antecipação daquilo que é a presunção dos resultados das eleições seria mau para toda a gente. Se for inevitável terá de se fazer, mas não seria positivo.

Mas concorda com esta análise de que a maioria formal já não corresponde ao sentimento da população?
Não sou uma empresa de sondagens, mas sei que as coisas vão e vêm, têm altos e baixos. É muito mau pensar que quando uma maioria está em dificuldade as pessoas se habituem que eles têm de sair. Porque isso adultera o nosso regime político e não beneficia ninguém.

Então Passos Coelho deve insistir na legitimidade democrática e governar de costas voltadas para os cidadãos?
Acho que não, mas essa é a sua ideia.

Não é a sua?
Não tenho a certeza que seja assim, estamos a falar de sondagens e, portanto, é muito difícil ter isso como certo. Certo são as eleições. Para já, esse pressuposto do “costas voltadas para os cidadãos” é forte de mais.

Mas já não há consenso no PSD, já não há consenso no governo, a oposição está cada vez mais afastada. Existem condições para para concluir esta legislatura?
Neste momento, julgo que sim. As aprovações no Parlamento têm sido conseguidas. O que não quer dizer que se agora houvesse eleições a atual coligação ganhasse. Francamente não sei, se calhar estaria muito tremida.

E o PSD ganharia?
O PSD não ganhou nas últimas eleições. Não sei. Não nos podemos perder nestas especulações. Há um calendário de eleições, vamos respeitá-lo, a não ser que haja qualquer acidente em que a maioria não funcione. Nessa altura teria de se arranjar uma solução. Procurar um problema pelas nossas próprias mãos, julgo que não é, neste momento, o que mais precisamos. Como se diz, deixar correr o marfim, deixar correr os prazos eleitorais, e depois logo se vê.

Deixar andar é, na sua opinião, o melhor?
Não é bem deixar andar, talvez me tenha expressado mal. O que digo é deixar funcionar o quadro político. Pode dizer que essa votação já não corresponde à realidade, mas só se sabe isso com eleições. Do ponto de vista político, Passos Coelho tem uma maioria e não é só do ponto de vista formal, conquistou-a, tem quatro anos para mostrar o que vale.

Tem condições para governar?
Aparentemente sim. Se quiser aprovar uma lei no Parlamento, não terá dificuldades, porque tem a maioria a seu favor. Se essas condições não se verificarem, é preciso pensar outra vez.

O governo elegeu o regresso aos mercados como grande objetivo. O ministro das Finanças conseguiu um primeiro passo com a emissão a 10 anos. Dado que a país tem de entrar numa nova fase de crescimento, ainda faz sentido manter um homem com o perfil de Vítor Gaspar nas Finanças?
Não faz sentido é substituí-lo. Ele está a seguir a sua política e não seria muito cordial travá-lo a meio da viagem. Insisto, a menos que se venham a dar condições que justifiquem que isso se faça. Neste momento, há que deixá-lo seguir, depois logo se vê.

Não está a insistir muito no “depois logo se vê”, no “vamos deixar andar”?
Talvez, mas é o que tenho para dizer.

O país suporta esse tipo de política?
Acho que não suportaria o contrário. Teríamos uma situação muito difícil se, de seis em seis meses, mudássemos de ministro das Finanças. Não funcionava, e provavelmente até iludia as pessoas. Quando se muda um ministro há sempre um estado de graça, e talvez pessoas acreditassem que dessa vez é que isto iria andar, até depois cair na mesma. Não faço ideia se há alternativa ao que está a ser feito, a verdade é que temos de passar por este cálice de fel e não devemos culpar o ministro pelo que está a fazer, pelo contrário, devíamos dizer que não tem outro remédio. Isto significa que o ministro das Finanças tem atuado sempre bem? Se calhar não, não conheço as coisas ao pormenor.

A missão de Vítor Gaspar não chegou já ao fim?
Acho que não. A missão dele é arranjar maneira de não estarmos falidos e, neste momento, ainda estamos com essa ameaça em cima. Se pergunta se tenho a certeza que isto vai resultar, não tenho, mas isso vamos ver na altura própria.

O governo prevê para 2014 um crescimento de 0,6%. Mas ao mesmo tempo anunciou um novo pacote para a reforma do Estado que inclui uma austeridade grande nesse ano. Acredita nessa previsão?
Não tenho outro remédio, não tenho razões para dizer que não vai ser assim. É verdade que em alguns aspetos falhou. O crescimento económico é mais importante do que qualquer outra coisa. Temos que a ter a noção disso. Esta crise abriu as portas para se considerar que a política é feita por macro economistas e não é. Há uma questão que é primordial, que é a economia. Se não produzirmos, se não vendermos, se não tivermos uma atitude de crescimento, não há finanças que resistam. O inverso não é tão verdade quanto isso. Temos que ter a noção de que é importante produzir coisas que se vendam, os chamados bens transacionáveis. Se não fizermos isso, não temos solução.

Numa carta enviada à troika, o governo detalha o impacto orçamental da reforma do Estado: 700 milhões este ano, 3.600 milhões no próximo ano, e em 2015 uma austeridade mais branda, de 400 milhões de euros. Em 2015, há eleições. Coincidência?
Não sei se será e julgo que não. É um prazo normal para estas coisas se corrigirem. Agora é que estamos a ver como enlouquecemos todos, quando nos convencemos que éramos ricos. Tudo o que era social era legítimo, tudo o que era social só não se fazia se o governo fosse mau, ou antipático, ou rezingão. Não havia o problema de haver dinheiro ou de não haver, era simplesmente ir ali buscar ao saco. E tanto fomos buscar ao saco que estamos nesta situação. Essa correção, que tem de ser feita de uma maneira ou de outra, indica claramente até que ponto estávamos desviados das nossas possibilidades.

Não respondeu. Há uma lógica eleitoralista?
Julgo que não. São períodos de quatro anos, parece-me normal. Se houver também é normal que haja.

É normal que haja uma lógica eleitoralista no meio desta austeridade?
Os governos pensam assim ao longo dos mandatos, acho que todos os governos fazem isso. Mas não me parece que se esteja a preparar isso dessa forma.

Em 1994, com o país a crescer e uma taxa de desemprego de apenas 6,8%, ou seja, por muito menos, enfrentou, enquanto ministro, a revolta popular com o buzinão na ponte 25 de Abril: o bloqueio, a carga policial, um tiro contra um jovem que acabou por ficar tetraplégico. Hoje, nada parecido acontece. Os portugueses mudaram? Qual é a sua explicação para o facto de hoje, com uma situação muito mais grave, não se verificar uma revolta popular tão grande?
As pessoas compreenderam muito claramente qual é a situação do país, que não há alternativa a isto, ou que a alternativa seria pior. Se não pensassem assim, evidentemente, que haveria uma situação social muito diferente. As pessoas têm a noção de que o país está muito mal e que financeiramente estamos nas ruas da amargura e que é preciso uma correção. E compreendem que essa correção é sempre dolorosa, de uma maneira ou de outra. Obviamente, que isto não significa que as pessoas estão satisfeitas, mas compreendem que não têm alternativa.

Essa compreensão não terá um limite? Há um conjunto de politicas que tem sido direcionada a dois grupos sociais, os funcionários públicos e os pensionistas. Poderá haver retroatividade na fórmula de cálculo das pensões. Este tipo de medidas não poderá minar essa compreensão?
Claro que pode, principalmente se as pessoas perceberem que são desnecessárias e que há alternativas. Se eu estivesse no Conselho de Ministros, não seria, em princípio, contra, porque não é legítimo ser contra quando o que está em jogo é o país não falir. Estaria, com certeza, muito preocupado em perceber quais são as alternativas, para poder escolher a socialmente menos nefasta. Mas a questão das pensões é, de facto, grave e, realmente, só se não houver alternativa é que se deve deitar mão a isso.

Como é que olha para o facto do governo dizer que não quer aplicar essa medida, mas ao mesmo tempo mantê-la na lista que envia à troika.
A última coisa que podemos aceitar é que o país vá à falência. Têm que elencar as medidas possíveis, o que é que se pode cortar, e depois escolher as menos piores. São sempre todas más, mas há que escolher as menos piores. É essa a escolha que vai ter de ser feita agora e o governo tem de mostrar isso à opinião pública.

Foi ministro das Obras Públicas de Cavaco Silva, ou seja, foi o responsável por grande parte das grandes obras, que tão criticadas têm sido e que muitos, inclusive do seu partido, o PSD, dizem ter sido um erro. Assume o exagero?
Está a dizer uma data de coisas que não são verdade. Não constituí dívida pública, fiz as obras sempre com o orçamento tal como estava, até ao limite. Não vejo ninguém no PSD a criticar essas obras, o que criticam são as obras que agora se fazem, sem clientes, e essas é que criam dívida. Eu, na altura, fiz as obras que devia ter feito, não me arrependo de nenhuma, que dissesse “esta era escusado ter feito”. Basta ver o que seria o país sem a autoestrada Lisboa-Porto ou a autoestrada Lisboa-Cascais. Se pergunta se estou arrependido, com certeza que não. Estaria se tivesse feito obras só pelo gosto de fazer, autoestradas sem clientes e que custaram uma data de dinheiro. Não o fiz e nem o faria.

Não sente que gastou mal o dinheiro em obras desnecessárias?
Não gastei um tostão em obras desnecessárias. E aliás se tiver uma que eu devesse não ter feito, diga.

No capítulo da estrutura ferroviária, Portugal ainda tem margem para evoluir?
Tem. Sempre disse que o TGV era um erro, um disparate fatal. Aliás, hoje estamos a ver o que é que seria. E acho que devíamos desenhar uma rede ferroviária nova em Portugal, chamada também de comboio de alta velocidade, entre 100 e 400 km/hora, mas não para TGV. Devia fazer a alta velocidade para 200 km/hora.

Para mercadorias ou passageiros?
Para passageiros. Mercadorias também, mas não é a prioridade. Ter um comboio intercidades, numa rede ferroviária de 200 km/hora, era um benefício para o país e valia a pena gastar algum dinheiro nisso, com a calma devida.

O seu irmão João Ferreira do Amaral, professor universitário e conselheiro dos antigos presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio, considera que a solução para Portugal é a saída controlada do euro, porque a moeda única não permite a resolução dos problemas estruturais do país. Neste aspeto, continua separado à nascença do seu irmão?
Mais ou menos isso. Conheço muito bem as ideias do meu irmão, com quem, aliás, discuto muitas vezes isso. Os argumentos dele são fortíssimos e dou-lhe valor por isso. Mas na minha opinião, devíamos evitar pensar nisso, pelo menos para já. O que não significa que, se o euro se esfrangalhar, e se houver uma corrida aos salva-vidas, que, nessa altura, não tenhamos que pensar no que temos de fazer, mas fazê-lo a frio, acho que, por muitos argumentos técnicos que existam para isso, ficava sempre a questão política grave.

Entende essa solução e até a admite, mas acha que Portugal não deve ser o primeiro a fazê-lo é isso?
Sim, isso não devemos ser com certeza, porque apesar das certezas de que o meu irmão é porta voz, e muito bem fundamentadas, nós, na verdade, não sabemos se resultaria. E atenção, que se não resultasse, era uma grande tragédia para Portugal. Temos de ser muito prudentes nessa matéria e, sobretudo, acho que devíamos evitar criar a ideia de que essa é a solução para os nosso males. A solução para os nossos males é produzir. Sei que a moeda é acusada de não facilitar essa produção, admito que será assim, mas o pior que podemos ver no euro é ser uma dificuldade. Devemos, no meu ponto de vista, tentar encontrar a solução da produção, porque é na economia que está a chave do problema, não é na questão financeira. Não é que a questão financeira não pudesse dar cabo de tudo, mas o nosso problema é e sempre foi esse, a economia.

Tem afirmado que a Lusoponte não é uma parceria público privada (PPP), mas o Estado considera-a uma PPP, aliás, considera-a a primeira PPP em Portugal. Afinal quem tem razão?
Não vejo que o Estado tenha dito isso.

Consta na lista das PPP da direção-geral do Tesouro e Finanças.
Isso não quer dizer nada. Seria difícil classificar porque, no tempo em que foi assinado o contrato de concessão da Lusoponte, não havia PPP. E não é, por uma razão essencial: o contrato da Lusoponte não endivida o Estado, porque o Estado não dá garantias nenhumas. É uma concessão: resultou , ganhaste; não resultou, perdeste. Mas o Estado não tem nada a ver com isso. O risco é todo da Lusoponte, o do tráfego. O tráfego tem caído abruptamente com a crise e o concessionário não vai pedir compensação ao Estado. Não há aqui um risco para o Estado e, portanto, não é uma PPP, não é uma parceria entre o Estado e o privado. O que se trata é de uma concessão, com condições. O Estado deu algumas compensações à Lusoponte, depois da concessão feita, mas porque o Estado exigiu alterações ao contrato, que lhe convinham do ponto de vista político. O que temos é um contrato de concessão que não custou teoricamente um tostão ao Estado, que ficou com uma ponte que é uma obra de arte. Quando acabar o contrato de concessão, a ponte reverte para o Estado e acabou. É bom para o Estado.

Qual é a taxa interna de rentabilidade da concessão?
Deve andar pelos 7%. Até agora, e infelizmente para o país, não tem sido rentável. Não tem porque houve esta queda de tráfego, que obrigou os sócios a protelarem aquilo que esperavam tirar de rendimento. Os sócios (Vinci, Mota-Engil e Autostrade) têm sido ótimos e a empresa continua muito estável.

A ponte Vasco da Gama custou quase 900 milhões de euros, dos quais, 6% foram investidos pelos acionistas privados. Quanto é que os acionistas já recuperaram do investimento inicial?
Não foram 6%. Os acionistas escolheram conduzir o projeto e financiá-lo através de project finance, em que o que garante não são garantias reais, não é a ponte que está a garantir esse empréstimo, mas a bondade do projeto. Os sócios entraram com tudo menos o financiamento do project finance. O que eles recuperaram, até agora, eu acho que foi nada, porque a empresa só num ano é que distribuiu dividendos. Neste momento, a grande preocupação da Lusoponte é que os bancos que se encarregaram do project finance, mantenham a confiança na Lusoponte, e não podemos brincar com isto, porque os bancos estão a observar.

Banca nacional ou estrangeira?
Banca estrangeira que está a observar. Eles têm meios para nos tramar, se estivermos a brincar com isto, basta exigir o pagamento. Temos tido muito cuidado e vamos continuar a ter, a dar confiança à banca. Se posso dar um conselho ao governo, é o de deve ter essa preocupação. Houve uma fase em que o governo começou a falar de que ia fazer outra ponte e que ia romper o contrato. Isso foi uma coisa horrível, a banca estrangeira arrebitou logo as orelhas. “Então eles não vão cumprir o contrato?” Tivemos uma grande dificuldade em explicar que não era bem assim. É preciso muito cuidado com a Lusoponte, não pôr em causa os pressupostos do contrato, porque o contrato é uma coisa muito importante para a banca estrangeira, que está a garantir o empréstimo. Se o contrato desaparece, a banca estrangeira exige logo o seu dinheiro, e a Lusoponte ficaria entregue à banca. Os governos têm de ter cuidado com isso porque, está em causa também uma coisa muito importante, que é o investimento estrangeiro. Houve seis candidatos a uma coisas destas porque havia uma grande confiança em Portugal, que respeita os contratos de concessão. Nunca houve um contrato de concessão que desse em litígio. Portugal tem uma tradição de 100 anos de contratos de concessão sem litígios.

O Estado tem encargos enormes com as PPP, sobretudo rodoviárias, e o Tribunal de Conta arrasa com estes de contratos. O problema está no conceito ou na forma como ele tem sido aplicado em Portugal?
Na minha opinião é no próprio conceito. As PPP são um mau negócio. As PPP tornam os construtores intermediários financeiros do Estado. O Estado não pode pedir dinheiro emprestado porque está nos limites, então lembrou-se desta ideia genial: ir pedir aos construtores para lhes financiar as obras, e ficava a dever aos construtores. Isso já não conta para a dívida, por razões que não sei muito bem quais são, então o Estado pedia emprestado aos construtores, os quais iam diretos à banca pedir dinheiro emprestado. É claro que isto tinha que dar mau resultado porque escancarou as portas ao céu é o limite. A partir daqui deixava de haver limites ao financiamento, o Estado fazia o que queria. É muito mau quando se chega a uma situação em que se gasta o dinheiro que se quer. É muito mau para o Estado.

O próprio conceito de PPP é mau para o Estado?
Hoje, o que está na cabeça das pessoas é que as PPP são uma maneira do Estado fazer obras sem dinheiro. Então, pergunto porque é que não faz a polícia, o exército ou a justiça?

O Estado vai conseguir através das renegociações ganhos reais para as contas públicas, ou os contratos estão tão bem feitos por parte das concessionárias que o Estado, na verdade, não tem hipótese?
Vai ser muito difícil, o Estado terá que ter muita imaginação para encontrar forma de dar a volta à questão. Os construtores seguraram-se o melhor que puderam, e com razão, para eles é a vida. Julgo que vai ser difícil.

O Estado quer avançar com mais um renegociação com a concessão da Lusoponte. Está disponível para ceder?
Sempre estivemos. Foi sempre uma atitude estratégica da Lusoponte. Estar sempre disponível para encarar as pretensões do Estado como pretensões importantes e negociar em conformidade. Estamos cá para negociar. Obviamente que o Estado não esperará outra coisa de nós, que não preservemos o equilíbrio financeiro, se não os bancos internacionais saltavam-nos em cima e mastigavam-nos até ao tutano. Temos toda a disponibilidade para ver quais são as pretensões do Estado. Embora, neste caso da Lusoponte, não vejo muito bem quais poderão ser, porque explorar isto de forma mais barata não é fácil. Fazemos o melhor que podemos e alterar isso para melhor não vai ser fácil, mas estamos disponíveis para isso.

Já agora, estou por aqui no Facebook

Poiares Maduro e o Benfica

Lisboa: Miguel Poiares Maduro em conferência sobre o Desenvolvimento Regional

Artigo publicado em Dinheiro Vivo
Fotografia de Natacha Cardoso

Além de cansativo, exaustivo, aborrecido, este Governo perdeu completamente – ainda mais, como se isso fosse possível – a noção do ridículo. Definitivamente, Passos Coelho e Vítor Gaspar não entendem a diferença entre determinação e teimosia e por isso, persistem numa de custe o custar, sem olhar a meios para atingir os fins, cegamente e “até que alguém nos tire daqui porque afinal nós fomos democraticamente eleitos pelos portugueses”.

Mas isto não é novidade para nenhum dos portugueses, não se espere de Passos, nem de Gaspar a iniciativa de deixar o Executivo, pois sentem-se ambos imbuídos do espírito de missão, ainda por cima, procuraram e receberam a bênção de Cavaco Silva.

Novidade é Miguel Poiares Maduro no cargo de ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional. O Governo pressentiu, agiu e remodelou. Mais do que qualquer outra coisa, pensaram Passos e Gaspar, o que os portugueses precisavam era de alguém que reinventasse a roda e mostrasse a descoberta em toda a sua perfeição.

O novo ministro seria finalmente capaz de resolver o problema, aquele, o tal, o único problema que Passos e Gaspar admitiam ter, o problema de comunicação, as dificuldades de explicação do que se passa e do que se sente aos outros – “Acontece tantas vezes com os mais inteligentes e brilhantes, porque não connosco?!”. Agora, iriam finalmente conseguir calar o Marcelo e o Ulrich, nada mais separaria o Governo do país.

E foi assim que chegou Poiares Maduro, vindo diretamente de Florença, da universidade para o mundo da comunicação. As mudanças já se sentem e não são poucas.

Repararam como depois de o ministro-adjunto ter repetido 1.562 vezes a palavra consenso nas suas duas últimas intervenções públicas o PS e António José Seguro estão muito mais recetivos ao diálogo com o Governo. E os parceiros sociais?! E a função pública?! E os reformados?! e todos nós?! Já repararam como depois desta remodelação o país e o Governo estão (não resisto!) como eu e o Benfica!

Agora podemos esperar tudo

Opinião

Texto publicado em Dinheiro Vivo

Quando começo a escrever, acaba de sair na France Press um take com o seguinte título: “Para Paris, a taxação dos pequenos aforradores foi um erro”. É o porta-voz do governo francês, Najat Vallaud-Belkacem, a qualificar a decisão do Eurogrupo e de Nicósia para resgatar a economia do Chipre e que, entre outras medidas, prevê a aplicação de um imposto extraordinário sobre todos os depósitos, mesmo os mais baixos.

França não foi o primeiro, nem será, muito provavelmente, o último país do euro a demarcar-se desta brilhante decisão assinada pelos seus ministros das finanças, madrugada dentro.Até já o nosso ministro das Finanças veio oportunamente dizer que a ideia foi dos cipriotas.

Sim, porque foi numa oportuna sexta-feira à noite que tudo começou, que estas mentes brilhantes, entre as quais não poderia faltar Vítor Gaspar, se sentaram à mesa e decidiram enterrar de vez a solidariedade na Europa.

Agora sim, podemos esperar de tudo. No Chipre, na Grécia, ou mesmo em Portugal. Por mais que nos garantam – o que é natural, em causa própria -, a partir de agora, ninguém pode estar seguro de que as suas poupanças, no limite o pouco dinheiro de uma vida de trabalho, não será atacado, e de noite para impedir qualquer tipo de reacção (só assim se poderia garantir a eficácia do corralito, como ficou conhecida na Argentina esta prática, até aqui inédita na Europa).

E assim a Europa, continua a cavar a sua sepultura, cada vez menos credível, cada vez menos solidária, cada vez mais dividida. Mais uma vez, desta vez, por 17 mil milhões de euros e menos de 0,5% do PIB da zona euro, o Norte recusa correr riscos para resgatar mais um país do Sul, cheio de histórias de corrupção, onde os bancos têm a fama, merecida, aliás, de lavar dinheiro russo.

Tem razão o porta-voz do governo francês. Foi, de facto, um erro taxar os pequenos aforradores do Chipre, foi um enorme erro de cálculo, mais um. Por mais que custe a Merkel explicar em Berlim a importância de não deixar cair o Chipre, vale bem a pena o esforço, em causa está muito mais do que meio ponto de produto europeu.

Silva Lopes: “Extorsão é o rendimento que atribuíram a Filipe Pinhal”

Entrevista - Silva Lopes

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo, transmitida na TSF, ao sábado depois das 13h00, e publicada ao sábado no DN e no JN.
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

Foi governador do Banco de Portugal de 1975 a 1980, fez parte dos primeiro quatro governos do pós-25 de Abril e foi ministro das Finanças e do Plano em 1978. Trabalhou para o FMI e para o Banco Mundial, foi deputado entre 1985 e 1987 pelo Partido Renovador Democrático (PRD), sempre de olho numa coligação com o PS, e mais tarde foi presidente do Conselho Económico e Social. Antes de se reformar presidiu ao Montepio Geral. José da Silva Lopes é economista, tem 80 anos, dois filhos e quatro netos.

Disse, mais do que uma vez, que Portugal não tem alternativa a esta austeridade imposta pela troika. Quase dois anos e sete avaliações depois, o país continua assim, sem alternativa?
Infelizmente continua. Só temos duas alternativas à austeridade: ou conseguimos que nos emprestem mais dinheiro ou conseguimos que aumentem bastante as exportações. A austeridade tem aqueles custos terríveis, como o desemprego, as pessoas que não têm o suficiente para viver decentemente, etc., mas o problema é que o país tem, neste momento, para gastar quase 20% menos do que tinha em 2008, antes de começar a crise. Hoje produzimos 8% menos do que produzíamos nessa altura, pagamos mais juros ao estrangeiro das dívidas que acumulámos – cerca de 2% – e também reduzimos o recurso ao endividamento externo. Produzimos menos, já não nos podemos financiar lá fora para gastarmos cá dentro, por isso, hoje os portugueses têm, em média, 18% menos para gastar.

Não há alternativa a Passos Coelho e a Vítor Gaspar?
Temos, neste momento, menos 18% de dinheiro para gastar do que tínhamos antes da crise. Isto significa que tivemos de cortar muito nas despesas, o consumo das famílias baixou pelo menos 12% nestes anos, o Estado gastou cerca de 6% menos, isto a preços constantes, e o investimento veio por aí abaixo. Cortámos quase 50% no investimento. Para sairmos disto era preciso haver mais dinheiro, que só pode vir da troika, dos mercados ou das exportações. Já cortámos muito nas importações, devíamos começar a importar mais, sobretudo bens de equipamento, porque o país está a perder capacidade produtiva, o que se vai refletir em crescimento muito difícil daqui a uns anos. Com estas condições todas, não vejo solução.

Não há alternativa a estas políticas?
haverá algumas. Não sou grande entusiasta das políticas do governo. O que se passa em Portugal depende mais da senhora Merkel do que do doutorº Passos Coelho. Neste momento, não temos instrumentos nem capacidade para, sozinhos, traçarmos o nosso destino. Infelizmente o nosso destino é hoje traçado na União Europeia, na Alemanha – a senhora Merkel é que decide se nos empresta mais dinheiro e se impulsiona ou não as nossas exportações. Uma coisa trágica é que os alemães, os holandeses, os finlandeses, em vez de estarem a expandir as suas economias – têm espaço para o fazer -, estão também a apertá-las. Apertando a procura na Alemanha é claro que exportamos menos para a Alemanha, e os espanhóis também exportam menos, e como os espanhóis exportam menos, nós exportamos menos para Espanha. Este ciclo vicioso podia ser rompido se esses países, que são capitaneados pela Alemanha, adotassem outras políticas. Infelizmente, esta conjugação de governos europeus nos países mais poderosos acham que restringir é que é bom. Portugal tinha de ter austeridade, não podia deixar de a ter, mas podia ser menos grave, menos dolorosa se a Europa tivesse uma posição mais pacífica.

Portugal acaba de ganhar mais um ano para atingir a meta de 3% de défice. É suficiente? Ganha-se alguma coisa com mais este ano?
Pelo menos não temos de tomar medidas tão drásticas imediatamente. Agora, põe-se o problema de saber como é que se vai pagar, porque, se temos mais um ano para cumprir o défice, temos mais um ano para pagar e a troika não vai dar mais dinheiro. Há a grande esperança de que tudo se vai resolver com o mercado. A Irlanda fez agora uma emissão que foi um sucesso.

Conseguiu colocar o dobro.
E com uma taxa de 4,5%. Quem nos dera… A Irlanda teve um sucesso louco e anda-se a fazer o possível para que Portugal também vá ao mercado. Hoje, temos melhores condições para ir ao mercado do que tínhamos há uns seis ou sete meses, mas, ao contrário do que alguns podem dizer, isto não é por causa do nosso esforço, não é por sermos muito bem-comportados e termos recuperado a confiança do mercado, nada disso.

É porquê?
É porque o Banco Central Europeu (BCE) anunciou, em agosto, que estaria disposto a comprar títulos dos países em dificuldades se os juros desses países subissem muito. Bastou esse anúncio para que os investidores, que compram os títulos de dívida pública portuguesa, espanhola, italiana ou irlandesa, sentissem que já não perdiam tanto como se não tivessem esta promessa do BCE. Este sucesso da Irlanda deve-se a isso. É verdade que a Irlanda está com melhor imagem do que nós. A grande esperança é que Portugal vá ao mercado buscar o dinheiro suficiente. Estou um bocado cético.

Não acredita que Portugal consiga?
Depende do que for a posição do BCE. Mas os nossos juros ainda não estão nada parecidos com os da Irlanda, já desceram muito, os juros a 10 anos chegaram a andar acima dos 10% e agora andam por volta dos 6%, mas ainda são altos, o país não tem capacidade para pagar taxas destas. Estou convencido de que continuamos a ter um problema grave de financiamento externo.

E mais um ano para chegar a um défice de 3% é suficiente?
Acho que a única solução é aumentar as exportações. E isso não conseguimos porque a Europa está em recessão. Uma recessão criada pelos alemães.

Assistimos a uma ligeira recuperação das exportações em janeiro, mas, no final do ano passado, elas caíram. Acha que se tratou de um mau momento ou o motor da economia gripou?
Não me posso pronunciar sobre o que acontece num mês, é preciso ver o que esse mês tem de petróleo, porque as exportações de petróleo alteram muito os números das exportações e isso não significa necessariamente valor acrescentado. Uma coisa é certa, a procura internacional para comprar exportações portuguesas não está a crescer. Exportamos cerca de 70% para a Europa e, se a Europa não está a progredir, não conseguimos vender. Acho que devíamos fazer o dia do exportador e homenagear os exportadores portugueses, porque é graças a eles que isto não está pior. Sou um pessimista por natureza e, de uma maneira geral, tenho-me enganado no meu pessimismo, para pior. Com uma exceção, a das exportações, onde foi um bocado melhor, embora não seja um milagre. Continuaremos? Espero que sim, mas não tenhamos muita esperança, porque não estamos a investir nos atores exportadores.

Como dizia António Pires de Lima, as exportações não vão salvar as empresas.
Não vão salvar, mas são elas que as mantêm. Se as empresas não vendem no mercado interno, o remédio é exportar. As exportações é que podem salvar a economia.

Nos últimos dois anos, a Europa conseguiu dinheiro para salvar a banca – 700 mil milhões de euros. Já para o crescimento parece não haver dinheiro. Isto é um erro, a Europa devia apostar em investimento público?
Claro que devia. Por isso é que sou muito crítico em relação às políticas restritivas da Europa, não só porque a Alemanha devia ser a locomotiva da Europa, mas também porque influencia a própria Comissão Europeia. Não sou dos que criticam o auxílio que tem sido dado aos bancos, porque se os bancos fossem à vida não funcionava nada. Se se deviam ter imposto mais limitações, admito que sim. Tem-se andado a pisar ovos no imposto sobre as transações financeiras. Mas, infelizmente, é necessário apoiar a banca.

E em Portugal o investimento poderia refletir-se em quê?
Neste momento, queria investimentos nas empresas exportadoras. Os grupos nacionais, os grandes grupos económicos nacionais não investem nada na exportação. Eles pensam em ganhar dinheiro, mas é dinheiro que não ajuda nada à economia, antes pelo contrário. Por exemplo, a linha de caminho-de-ferro para a Europa a partir de Sines parece-me uma boa ideia, muito melhor do que a ideia do TGV, porque pode realmente facilitar a exportação.

A economia nunca caiu tanto num ano, desde 1975, como em 2012: 3,2% de queda do PIB. Vivemos numa espiral recessiva, conforme diz o Presidente da República?
Há muito tempo. Não é preciso estar um ano à espera. Já se sabe isso.

É Cavaco Silva quem tem razão e não Passos Coelho?
Mas é mais do que claro. No ano passado, o governo tinha projetado um determinado crescimento para os impostos, mas como a economia afundou, a receita fiscal também baixou. O défice foi maior do que o previsto e, portanto, foi preciso cortar mais despesas. E cada vez que se cortam mais despesas provoca mais recessão, há menos receita fiscal e mais necessidade de cortar despesa outra vez. Isto é um ciclo vicioso, um ciclo recessivo ou vicioso. Essa coisa de dizer que não havia sido previsto é completamente falsa. A teoria dos economistas ultraconservadores, que diz que quando se corta na despesa e se baixa o défice se inspira confiança nos mercados e os mercados investem mais, isso é fantasia, é um raciocínio fantasma, não está provado em parte alguma. O que está provado é que cortar nas despesas ou aumentar os impostos provoca recessão.

Concorda com a discrição e o silêncio de Cavaco Silva, ou acha que o Presidente deveria ter um papel mais interventivo?
Isso é uma questão de política sobre a qual eu não me quero pronunciar.

Disse várias vezes que um dos principais problemas de Portugal são os seus líderes. Cavaco Silva e Passos Coelho fazem parte do problema do país?
Eles farão parte do problema, mas não é um problema que possam resolver individualmente. O problema de Portugal é da responsabilidade de todos nós. Somos nós que elegemos os líderes, que mantemos um sistema que não atrai bons líderes. As pessoas mais capazes deste país – e conhecemos algumas -, que seriam grandes líderes políticos, querem é ganhar dinheiro. Quantos indivíduos há aí na atividade privada que podiam ser bons líderes se não quisessem ganhar dinheiro?

A atividade política é cada vez menos atrativa?
Claro, ainda por cima só serve para levar pontapés, como se eles sozinhos é que tivessem as culpas. As culpas estão em todos nós, nós queremos pensões altas, queremos salários altos, não queremos que nos cortem os salários, não queremos que nos cortem as pensões.

Por falar em pensões, sendo também um pensionista, qual é a sua opinião sobre o recente movimento dos pensionistas indignados liderado por Filipe Pinhal, ex-administrador do BCP?
Pois sou, sou um pensionista e também seria afetado por esta lei de corte nas pensões mais elevadas, mas estou em profundo desacordo com esse movimento. Sou a favor de cortar muito nas pensões altas. Cortar mesmo muito. E, portanto, aquele esquema que a Assembleia da República usou é um esquema que realmente faz que na margem se possa perder, como diz o Pinhal, à volta de 90% do rendimento, mas não vejo mal nenhum nisso. Ele diz que é uma extorsão, extorsão é o rendimento que lhe atribuíram. Quando se atribui a um tipo um rendimento de 20 ou 25 mil euros num país onde há gente que tem reformas de 400 euros, isso não é extorsão? Claro que é extorsão. Eu sou ferozmente contra essa coisa e contra o meu próprio interesse. Sou a favor de grandes cortes nas pensões. E por mim gostaria muito, embora não acredite que o Tribunal Constitucional aprove isso.

Um corte permanente de quatro mil milhões de euros na despesa do Estado é suficiente?
Tudo depende do crescimento económico. Se tivéssemos um crescimento económico de 1% ou 2% poderíamos não ter de cortar tanto na despesa do Estado. Mas, infelizmente, o crescimento económico vai ser negativo e, como tal, teremos realmente de cortar na despesa.

Mas quatro mil milhões são suficientes?
Acho que é melhor não se fazer tudo de uma vez porque quatro mil milhões de euros causam um efeito recessivo à volta de 2% no PIB. Isto, com aquela ideia dos multiplicadores que há para aí, podia dar mais uma queda importante no PIB e tem de se ter cuidado. Agora, evidentemente, é apenas adiar. Cortar 4 mil milhões de euros permite, por um lado, equilibrar o défice e, por outro, acabar com ineficiências do Estado, serviços públicos que não são necessários, ou remunerações excessivas.

Como grande parte da despesa do Estado está nas prestações sociais, na saúde e na educação, provavelmente os cortes serão sobretudo nessas áreas.
Não haverá maneira de fazer cortes sem ser nos salários ou nas remunerações sociais. É por isso que não sou muito entusiasta do corte dos quatro mil milhões de euros, reconheço que talvez seja necessário, mas por agora andava com cuidado. E principalmente fazia uma coisa que não está feita, estudava, rubrica a rubrica, o que se devia cortar. Mas depois aparecem os lobbies…

As famosas gorduras do Estado.
Vejamos o caso da defesa. Há quem sustente que a despesa na defesa podia ser cortada em um terço porque o nosso país gasta mais do que os outros. Mas depois vêm os militares mostrar que não ganham mais do que os outros. Esclareça-se isso.

E, na sua opinião, essa área é uma boa candidata a cortes?
Não é, por causa do poder, do problema dos grupos de interesse. O grupo de interesse militar é muito forte, como o grupo dos professores. Estude-se tudo! Acho que é preciso estudar. Há casos em que realmente temos despesas acima da de outros países. Por exemplo, se a remuneração de um chefe de repartição em Portugal é 20% acima do PIB per capita, e se noutros países é 10%, isso quer dizer que o português está relativamente bem pago. Este tipo de estudos existe em algumas áreas mas noutras não. Acho que é preciso fazer estudos profundos. Não vejo mal nenhum em que os militares, os professores e os funcionários da TAP contestem, mas isto tem de ser estudado, temos de ter os números.

No início do ano foi divulgado um relatório do FMI que aconselhava o governo a cortar na despesa com os salários de funcionários públicos e com as pensões. Um documento polémico que criticou. Paulo Silva Lopes, seu filho, foi um dos autores desse estudo. Já teve oportunidade de discutir o documento com o seu filho? O que lhe disse?
Não, não, não, não discuti. O meu filho esteve cá nessa missão – ele trabalha no FMI e está em Washington, e nunca ele discutiu isso comigo, nem eu com ele. Aliás, é contra o dever de sigilo a que ele está obrigado. Se ele discutisse coisas comigo, das quais eu desse conhecimento público, ele era expulso, pura e simplesmente. Mas isto não me impede de dar uma opinião sobre o relatório. É um exercício muito apressado e que precisava de ser desenvolvido e até modificado. Aquilo foi feito muito à pressa, é muito superficial e, principalmente, não foi discutido. Por exemplo, no capítulo da educação, que deu muito barulho… Acho muito bem que tenha dado muito barulho, mas tem de ser discutido. O Fundo fez um trabalho imperfeito, no meu entender.

Não disse isso ao seu filho?
Mas o meu filho não manda.

Mas os pais costumam dizer isso aos filhos…
Isto é muito delicado. Calculo que ele – nem ele nem nenhum dos outros autores – não está de acordo com tudo o que diz no relatório. Estão de acordo com 90%, mas não com 100%, e o que conta é a posição da instituição, não o resto. No meu entender, o relatório foi útil, mas tem de ser desenvolvido, tem de ser estudado. Depois, quem criticar, critique com base em boas informações. Não é só dizer que aquilo é uma porcaria, também não se pode dizer isso.

O desemprego é uma das consequências mais visíveis da austeridade. Há quem defenda um plano de emergência, que se for preciso deve colocar-se os desempregados todos, economistas ou engenheiros, a limpar matas, ou a construir rotundas. Concorda?
Isso não é uma solução. Seria se pudesse aliviar as dificuldades de muitos desempregados. Se essa for a forma de um engenheiro temporariamente diminuir as suas dificuldades, porque não?! Acho que um programa desses devia ser ensaiado, mas numa base puramente voluntária. Um indivíduo está desempregado, tem direito ao subsídio de desemprego, mas se optar por uma coisa dessas pode receber mais qualquer coisa do que o subsídio de desemprego. Um engenheiro poderia ser necessário para organizar as equipas de trabalho, para fazer o planeamento. Um programa desses era útil, embora numa base puramente voluntária. E para isso é preciso dinheiro.…

O primeiro-ministro lançou novamente a polémica sobre o salário mínimo, dizendo que, em teoria, a redução do valor (485 euros) promoveria o emprego. O que se deve fazer numa situação de recessão como a que estamos a viver?
Se acabarmos com o salário mínimo – os ultraliberais defendem isso -, vamos retirar uma proteção essencial aos trabalhadores pouco qualificados. Há países na Europa que não têm, mas a maior parte tem. E os que não têm são países muito bem organizados, são os países escandinavos, que têm sindicatos fortes e sociedades mais coesas. E esses países não têm salário mínimo porque não precisam dele. Agora, num país como o nosso, aliás, na grande maioria dos países, o salário mínimo é necessário. Por outro lado, não penso – e acho que há estudos nesse domínio – que uma redução do salário mínimo aumentasse o emprego ou reduzisse muito o desemprego. Muitas empresas conseguiriam sobreviver se o salário mínimo fosse reduzido em 5% ou 10%, mas os efeitos são negligenciáveis. O argumento de que reduzir o salário mínimo ajuda a criar emprego comigo não pega. Por outro lado, aumentar o salário mínimo também é difícil porque as empresas estão com muitas dificuldades. Defendo que, embora haja necessidade de baixar salários em muitos sectores, não é no salário mínimo que se deveria mexer. Até acho que se deveria aumentar o salário mínimo, embora só em 2%, no máximo (valor da inflação), por forma a manter o seu valor real.

Há poucos dias vimos o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, dizer que, por causa da crise e do problema do desemprego, sobretudo do desemprego jovem, a Europa arriscava-se a perder uma geração. Em Portugal também estamos a falar de uma geração perdida?
Em grande parte, estamos a perdê-la já. Muitos jovens qualificados estão a sair do país – e vão fazer cá falta. Qualquer dia queremos bons profissionais em Portugal e eles estão a trabalhar em Inglaterra, na Alemanha, ou não sei onde. Portanto, já estamos a perder esta geração. E, por outro lado, os jovens que saem da universidade e não arranjam emprego vão perdendo qualificações. Realmente, concordo com essa frase. É uma tragédia e merece estudo. Temos problemas com os jovens desempregados, mas também temos problemas com os velhos, com os indivíduos de 50 anos para cima, desempregados, porque também nunca mais arranjam emprego. E também temos problemas com os indivíduos entre os 20 e os 50, que têm filhos para criar e não têm dinheiro para lhes dar. O desemprego é mau em todas as idades, nem sei onde é que ele é pior, mas como os jovens são o futuro, evidentemente que são uma parte importante.

Não preciso deste Governo para nada

Opinião

Artigo publicado em Dinheiro Vivo

Os dias em que o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulga os dados oficiais do desemprego em Portugal são bons dias para deitar tudo cá para fora, para desabafar, ainda por cima com razão.

No último trimestre de 2012, estavam no desemprego quase um milhão de portugueses. Muito mais do que 16,9%, o número oficial. Desde que Passos e Gaspar e a Troika assumiram o poder, em meados de 2011, Portugal ganhou quase 250 mil novos desempregados. O desemprego afecta 40% dos jovens com menos de 25 anos e 13,4% dos licenciados, e 56% do total está desempregado há mais de um ano.

Dirão que, por isto tudo, se temos um quarto do país no desemprego, é mais que natural que se critique o Governo, sobretudo no dia, ou nos que se seguem à divulgação dos dados dos desemprego, em que ainda está tudo muito quente.
E acrescentarão ainda que será também natural que depois a raiva passe e dê lugar à tomada de consciência de que não há alternativa, de que o Governo, como foi com os nossos pais, faz o melhor por nós, de que as medidas são duras, mas necessárias, de que há que voltar ao dia-a-dia, trabalhar muito e ajudar o país a sair desta crise.

Ora, é aqui que eu já parei há algum tempo, e volto a parar sempre que ouço Passos Coelho falar. Ontem, tornou-se ainda mais claro que não preciso deste Governo para nada. Não preciso de um primeiro-ministro e de um Governo que pensa não dever ter nenhum papel ativo no combate ao desemprego, na criação de emprego e no crescimento económico. Não preciso de um Governo que se limita a constatar a catástrofe e admitir erros nas projeções. E muito menos preciso de um Governo que quando faz alguma coisa, por pouco que seja, falha, talvez por falta de convicção na importância do Estado Social e das políticas públicas. Infelizmente, o Impulso Jovem apenas existe para provar o quão desnecessário este Governo é.

E é isto que aqui partilho, publicamente, no meu espaço de opinião: não preciso, não quero este Governo, não quero estas políticas, não quero entregar a este Governo a reforma do Estado Social.

Fernando Ulrich: “Há pessoas que vivem muito pior e aguentam”

Entrevista Fernando Ulrich

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

Escolheu o seu futuro aos 6 anos, quando recebeu uma nota com a assinatura do avô paterno, que era administrador do Banco de Portugal: quando fosse grande queria trabalhar num banco. E assim foi. Fernando Maria Costa Duarte Ulrich nasceu em Lisboa, em 1952, cresceu num meio ligado ao sector financeiro, é casado, tem três filhos e quatro netos, o quinto vem a caminho. E é o presidente do BPI. A entrevista com o banqueiro mais polémico.

Veja aqui o vídeo da entrevista

Vamos começar por umas palavras suas, no final de outubro, que ainda hoje os portugueses guardam e que são: “Ai aguenta, aguenta. Não gostamos, mas Portugal aguenta.” Referia-se a mais austeridade e dizia-se chocado com as pessoas com responsabilidade que criticavam o governo. Ainda defende mais austeridade em Portugal?
Nunca defendi níveis de austeridade mais ou menos elevados. Não era nem é esse o ponto. Pretendi foi a chamar a atenção para o facto de o nível de austeridade, em todos os países, depender do comportamento da economia. No caso português, dada a situação a que chegámos, depende do comportamento da economia e da vontade dos credores. É uma chamada de atenção que se mantém. Nunca me ouviu defender níveis de austeridade e acho que ninguém defende mais ou menos austeridade em si mesmo. O que me pareceu e parece perigoso é deixarem colocar nas pessoas a noção de que é porque se quer ou não se quer austeridade que a austeridade é maior ou menor. Não, não tem que ver com a vontade ou o gosto pela austeridade. Tem é que ver com a realidade da economia. Foi nesse quadro que disse isso e chamando a atenção de que a resposta fundamental que temos de dar é a de conseguir pôr a economia a crescer.

Mas então o país aguenta ou não esta austeridade ou mais austeridade?
Acho que essa pergunta não tem sentido. Naquela ocasião respondi porque alguém antes de mim a fez e fazia sentido naquele debate. O que é que essa pergunta quer dizer? Basta andar na rua para verificar que há pessoas que vivem muito pior do que você ou do que eu e aguentam, portanto, se essas pessoas aguentam, você também aguentaria e eu também. Não percebo qual é o sentido dessa pergunta.

Esta pergunta pode ser substituída por outra. Na mensagem de ano novo, Cavaco Silva criticou a política económica do ciclo vicioso que conduziu o país a uma espiral recessiva. Disse ainda que era fulcral o país concentrar-se no crescimento económico, ou de nada valerão os sacrifícios. Quem é que tem razão, o governo, com esta política de austeridade, ou Cavaco, que defende uma estratégia de crescimento?
Penso que não existe nenhuma contradição entre a política do governo e as afirmações do Presidente da República. Tal como não existe nenhuma contradição entre essas afirmações e aquilo que eu disse. Estamos todos a dizer a mesma coisa. Tendo deixado o país chegar ao estado a que chegou em termos de desequilíbrios macroeconómicos, de excesso de endividamento e de impossibilidade de se financiar, não havia alternativa que não fosse pôr a casa em ordem. E pôr a casa em ordem era e é uma condição necessária, mas não suficiente, para permitir o crescimento económico, que nos há de melhorar as condições de vida a todos. Não vejo nenhuma contradição nessas afirmações.

Estamos ou não no tal ciclo vicioso de espiral recessiva de que Cavaco Silva falava?
Acho que não.

Discorda de Cavaco Silva e concorda com o governo?
Temos de acabar com esta coisa de concordar ou discordar dos outros. Estou aqui para manifestar as minhas opiniões. Não sou comentador. Não tenho de me pronunciar – nem quero – sobre o que disse o Presidente da República ou o que disse o governo. Acho que isso é uma forma muito pobre, redutora, de discutirmos os temas, e recuso-me a entrar nesse jogo. O que entendo é que era preciso, numa primeira fase de ajustamento, fazer aquilo a que chamei “pôr a casa em ordem”, que era reduzir o défice orçamental, pôr as contas externas em ordem. O país já vive em equilíbrio das contas externas e o défice orçamental é de 5% este ano, quando era de 11% não há muitos. Os progressos, nesta primeira fase da estratégia de recuperação dos desequilíbrios macroeconómicos, são indiscutíveis.

Só há um indicador que não referiu e é muito importante: a dívida pública atingiu 120% do PIB. Como é que se reduz o rácio sem crescer e sem entrar em incumprimento?
Comecei por dizer que é fundamental o crescimento. Não há aqui nenhuma contradição nem diferença de opiniões, não se consegue é fazer tudo ao mesmo tempo. Nunca tive a ilusão, disse-o sempre, de que fosse possível, em simultâneo, numa primeira fase, fazer o controlo e a redução do défice e o controlo das contas externas e fazer a economia crescer. Nunca acreditei nisso. A evolução que Portugal tem atravessado nos últimos dois anos para mim é normal. É óbvio que temos de andar para a frente, não podemos ficar satisfeitos com a situação em que estamos. Mas se não tivéssemos percorrido este caminho, se não tivéssemos posto a casa em ordem, o crescimento económico seria pura e simplesmente impossível. Tenho dito, nas últimas semanas, e reafirmo que estamos num momento de viragem. É absolutamente fundamental valorizar o que foi conseguido com o regresso aos mercados. Se Portugal não tiver acesso aos mercados, não tem maneira de ter crescimento económico. É bom que as pessoas percebam isso. E isso foi conseguido, mais cedo do que pensava, e considero que foi um grande êxito. Obviamente, é um primeiro passo, é preciso tornar este caminho sustentável, e veremos isso ao longo dos próximos meses, mas foi absolutamente essencial que Portugal tenha conseguido voltar aos mercados.

Neste momento de viragem, chegou o momento de o governo pedir mais tempo e/ou mais dinheiro para permitir que a economia cresça?
Não tenho a informação toda. Quem está ao leme na condução das negociações com a troika, designadamente os líderes políticos: o dr. Passos Coelho, o dr. Paulo Portas e o dr. Vítor Gaspar, ajudados pelo governador do Banco de Portugal, têm muito mais informação do que eu e estão mais bem colocados para saber qual é a melhor forma de conduzir as negociações. Penso que têm feito um trabalho muitíssimo bom nessa frente da negociação externa. Constato que estamos hoje, a meio do calendário do programa, em muito melhores condições do que estávamos quando a troika chegou a Portugal. É natural que isso vá aumentando a margem de manobra de Portugal.

Mas sem estratégia de crescimento.
O crescimento terá de vir a seguir. É a sequência, as coisas estão a evoluir.

Quando e como?
A realidade é dinâmica e as coisas vão acontecendo todos os dias. Um dos aspetos que mais negativamente afetaram a economia e o desempenho das empresas portuguesas, nos últimos três anos, foi o aumento do custo do crédito para as empresas. Agora estamos a entrar num processo de inversão desse comportamento. Não vai ser de hoje para amanhã, mas penso que estamos num momento de viragem para uma situação em que as condições de financiamento da economia vão melhorar. Isso vai beneficiar transversalmente todas as empresas. Só isso pode ter um impacto muito maior do que dezenas de decretos-lei e coisas chamadas reformas.

Entrega nas mãos do governo?
Eu não entrego nada nas mãos do governo. Eu entrego nas mãos dos empresários e das empresas saberem aproveitar um entorno que é hoje muito mais favorável do que era há seis meses ou há um ano. Há um ano, estava-se a discutir se o euro continuava ou não continuava, se Portugal se aguentava no euro, se a Itália se aguentava no euro. Essas questões já não se colocam. Temos um enquadramento europeu muito mais favorável. Foram tomadas decisões importantíssimas a nível do Conselho Europeu, designadamente no que toca à União Bancária. As medidas do Banco Central Europeu foram fundamentais. Penso que estamos numa situação em que começa a ser plausível que o investimento comece a recuperar na economia portuguesa. Mas não consigo dizer se é amanhã, se é para a semana, se é daqui a seis meses, se é no final do ano, porque isso vai resultar de milhares de decisões. Agora, temos de valorizar que estamos num momento de viragem. O governo tem um papel importante, mas há muito mais agentes que têm de assumir as suas responsabilidades.

Há pouco não gostou, mas vamos voltar a Cavaco Silva.
Gosto muito do Presidente Cavaco Silva.

Mesmo depois do discurso de ano novo de Cavaco Silva, muito crítico para o governo, e da instabilidade dos últimos tempos, com todas as movimentações políticas na coligação, no governo e no próprio PS, continua a achar que não há nenhuma crise política em Portugal?
Eu não sou comentador político, como já disse.

Não lhe pedi nenhum comentário político, mas a sua opinião enquanto banqueiro.
Não tenho de ter opiniões políticas. Como cidadão, a leitura que faço é que a atual maioria vai cumprir a legislatura e o mandato que tem na Assembleia da República. É esse o meu quadro de raciocínio e é o cenário com que trabalho. Sinceramente, não vejo como é que pode não ser assim.

Considera positivo que assim seja?
Eu considero, claro.

Mas, uma vez, defendeu que, numa situação difícil como a que o país está a viver, seria útil ter eleições de dois em dois anos. Já não pensa o mesmo?
Isso era numa altura em que as pessoas estavam muito agitadas com esse tema, nomeadamente ao nível da coligação. E se as pessoas não fossem capazes de se entender, em vez de se estar a viver sob o estigma de crises e de instabilidade, mais valia as pessoas entenderem-se. Em situações muito difíceis, se calhar era melhor haver um prazo mais curto e, se quiser, isso também serviu como uma forma de chamada de atenção aos políticos de que mais valia entenderem-se do que viverem em instabilidade.

Essa instabilidade que verificou existir em outubro, quando defendeu eleições de dois em dois anos, já não existe?
Já lhe respondi a essa pergunta, não estou aqui para falar sobre isso, sobre isso não tenho mais nada a dizer. Já lhe disse que acredito que esta maioria tem todas as condições para chegar ao fim da legislatura. Acredito e desejo que isso aconteça, e acho que é bom para Portugal.

Disse também que gostava de um dia vir a assumir um cargo governativo, ou de ser deputado. Já chegou a hora?
Não disse que gostava de assumir um cargo governativo, disse, sim, que gostava de ser deputado. Já tenho 60 anos e penso que as responsabilidades governativas são muito exigentes, também do ponto de vista físico, da resistência para uma vida muito stressante e muito intensa. Penso que estou em boa forma para fazer aquilo que faço, mas, provavelmente, não estaria na forma suficiente para fazer aquilo que os governantes têm de fazer, para isso não me sinto qualificado. Aquilo que disse foi que, um dia, gostava de ser deputado – e mantenho. Considero uma atividade muito nobre, pela qual tenho muito respeito. Neste momento, tenho as responsabilidades que tenho e uma grande paixão pelo BPI, pelo que faço e pelas pessoas com quem trabalho, pelo que não consigo visualizar no tempo.

Vamos então falar do BPI, sobre o empréstimo do Estado por causa da recapitalização. O BPI tomou a opção de antecipar o reembolso deste pagamento: já amortizou 300 e esta semana anunciou o reembolso de mais 200 milhões de euros. Quando pensa ter o empréstimo completamente reembolsado, já que o prazo inicial estimado seria de cinco anos?
O BPI divulgou um plano que prevê o reembolso gradual, não em quantidades exatamente iguais todos os anos, mas relativamente equilibrado ao longo dos cinco anos. Estamos adiantados relativamente ao calendário que anunciámos inicialmente, em que se previa que os reembolsos só começassem no final deste ano. É cedo para estar a divulgar outro calendário que ainda não temos. Este adiantamento foi possível porque a atividade do banco correu bem, mas ainda é cedo para adiantar um novo calendário. Disse na conferência de imprensa [de quarta-feira] que não é de excluir que, quando anunciarmos os resultados de março, possamos fazer outro pedido de reembolso num montante provavelmente inferior a 200 milhões de euros, mas por enquanto é só uma possibilidade.

Antevê o cenário de o BPI reembolsar por completo o empréstimo antes do final dos cinco anos?
Não gostava de me pronunciar sobre isto. Estamos a lutar para que as autoridades europeias atualizem o cálculo das necessidades de capital. Se isso acontecer, poderemos andar muito mais depressa.

O BPI anunciou os seus resultados, um lucro de quase 250 milhões de euros, contra prejuízos de quase 285 milhões em 2011. Explique-nos como é que no meio desta crise é possível uma instituição que opera num sector especialmente afetado conseguir estes resultados?
De facto, 2012 foi um ano muito mau, muito duro, em que tivemos vários contributos anormais, extraordinários, que afetaram muito negativamente os resultados do banco. O aumento das imparidades para crédito malparado, as perdas em dívida soberana da Grécia que o banco tinha na carteira, e as perdas ligadas à transferência de parte das responsabilidades com pensões, que deixaram de ser do banco e passaram a ser da Segurança Social e que tiveram um impacto negativo nos resultados de 2011, tal como aconteceu com outros bancos. Em 2012 não houve o impacto negativo da Grécia, não houve o impacto negativo da transferência de fundos de pensões para a Segurança Social e não tivemos os impactos negativos mais significativos do ano anterior. E a atividade do banco correu bem em geral, correu melhor do que em 2011, apesar de as provisões para o crédito malparado terem aumentado bastante relativamente a 2011, fruto das dificuldades por que passa a economia portuguesa. Beneficiámos também do facto de, no início de 2012, haver muito nervosismo, muito receio, nos mercados internacionais relativamente a Portugal. Isso permitiu ao BPI fazer duas coisas, que tiveram um contributo muito positivo. Uma foi comprar dívida do próprio BPI emitida no passado e que estava na mão de investidores internacionais. Como eles estavam assustados com Portugal, queriam vender essa dívida a preços de saldo e o BPI recomprou-a com grande desconto, e esse desconto, face ao valor nominal da dívida, é um lucro. A outra situação, que se verificou em simultâneo, foi que, nessa fase de desconfiança relativamente a Portugal, a dívida pública portuguesa também estava muito desvalorizada nos mercados internacionais e, portanto, havia muitos investidores internacionais que preferiram vender a dívida do Estado português. O BPI fez investimentos em dívida pública portuguesa que, entretanto, se valorizaram muito, na segunda metade de 2012 e no início deste ano, e que o BPI vendeu e realizou ganhos também significativos, que compensaram o aumento das imparidades para crédito. Mas, além disso, o banco continuou a sua política de corte de custos, a margem financeira teve uma evolução positiva, as comissões também e, portanto, esse conjunto todo explica o bom comportamento dos resultados.

Acabou o período de prejuízos e voltamos ao antigamente, em que os lucros dos bancos vão aumentando todos os anos? Ou seja, este ano será melhor do que 2012?
Não posso dizer isso. Neste momento, a minha estimativa é que este ano vai ser positivo, mas os resultados, provavelmente, serão inferiores aos de 2012.

Porquê?
Porque em relação a alguns destes fatores extraordinários que referi, designadamente a recompra de obrigações próprias e os ganhos com a dívida pública, vamos ter menos espaço para realizar ganhos da mesma dimensão que obtivemos em 2012. E, portanto, aí haverá um contributo positivo, mas que será menor do que este ano. Do lado das imparidades para crédito malparado, pensamos que será melhor do que em 2012, mas tudo conjugado, provavelmente produzirá um resultado positivo mas inferior ao de 2012.

Apesar do aumento do desemprego previsto para este ano, considera que as imparidades vão ser menos agravadas do que em 2012?
Sim, porque o desemprego afeta sobretudo o crédito às famílias. E a maioria do crédito às famílias em Portugal (no caso do BPI, mais de 90%) é crédito para a compra de habitação, com juros baixos. O essencial que temos na carteira foi concedido até 2009 – daí para cá a contratação caiu muito – e o crédito até essa altura tem spreads muito baixos. O essencial são créditos que têm hoje em dia juros baixíssimos. Calculo que pode subir um bocadinho este ano, porque a Euribor está a subir um pouco, mas vão continuar em níveis muito baixos. Por isso não estou à espera de que, apesar do aumento de desemprego, resulte daí um problema muito significativo. Ao nível das empresas, é bom ter consciência de que a economia portuguesa é cada vez mais dual, no sentido em que há sectores e empresas que trabalham sobretudo para o mercado interno, e essas, obviamente, têm sofrido muito com a contração da procura interna e com a austeridade. Há um número menor mas, apesar de tudo, significativo de empresas que trabalham para o mercado externo, e essas, na generalidade, estão muito bem e estão a crescer e a ter mais vendas, estão a ter mais resultados, e são essas que pouco a pouco irão puxar pela economia portuguesa. Serão, provavelmente, essas empresas que irão recomeçar a investir e irão arrastar positivamente a economia portuguesa, à medida que o tempo avança. De facto, temos tido alguns problemas de crédito malparado em algumas empresas, mas, a dada altura já não há mais para acontecer e há uma altura, como se costuma dizer, em que as coisas batem no fundo.

No crédito à habitação, considera que já acabou o período de descida da Euribor? Este ano já esgotámos a fase de descida da Euribor? Considera que existe alguma margem para subir a prestação do crédito à habitação este ano?
Não gosto de fazer previsões sobre isso. Mas é verdade que as taxas de juro da Euribor atingiram valores que todos pensávamos que eram inatingíveis por serem tão baixos, as taxas de juro na Europa estão abaixo das do Japão. E como estão perto de zero, a dada altura ou ficam por aí ou só podem subir. Estão numa situação pouco habitual, muito abaixo do nível da taxa de juro do Banco Central Europeu, que está em 0,75% – as Euribor estão abaixo de 0,5%. Já li vários analistas e especialistas nestas matérias a admitirem que, com a normalização progressiva da situação nos mercados, a Euribor pode ter tendência para subir alguma coisa, mas confesso que prevejo que se mantenha em níveis baixos ainda durante bastante tempo.

Com tantos sacrifícios que as pessoas têm vindo a ser chamadas a fazer, acha natural a incompreensão em relação aos lucros dos bancos?
Ou acha que se trata de ignorância e de populismo no aproveitamento dessa ideia?

Não sei ao que se está a referir. Em 2011, a maior parte dos principais bancos que operam em Portugal não tiveram lucros, tiveram prejuízos, e prejuízos significativos.

Mas a banca é tradicionalmente uma atividade lucrativa.
Não é verdade! Repare na quantidade de bancos, em vários países do mundo, incluindo Portugal, que faliram, ou por má gestão ou por outras razões. É um sector que não é garantido, que não tem uma rendibilidade garantida nem assegurada. Se as instituições financeiras forem bem geridas… As coisas quando são bem geridas têm tendência a ter resultados positivos, mas nem todas são bem geridas, o que é comum. No sector do vinho também é assim, nas telecomunicações também. Ao que nós assistimos, desde 2007 para cá, foi a uma redução significativa do sector bancário, não só em Portugal mas um pouco por toda a Europa. Essa imagem que transmitiu não corresponde totalmente à realidade e, por aquilo que leio nos jornais relativamente ao exercício de 2012, há bancos importantes que vão continuar a apresentar prejuízos, e até já vi declarações de responsáveis de outros bancos que admitem que, mesmo este ano, ainda vão ter prejuízos. A sua descrição inicial não corresponde à realidade. Estamos a viver uma situação em que tem havido vários bancos com prejuízos significativos. Não noto essa incompreensão até porque a realidade não é essa.

Um dos fatores fundamentais para o negócio da banca é a confiança que as pessoas têm nos bancos. Essa confiança, em Portugal, foi abalada pela crise e pelo caso BPN. Ultimamente, no caso do Banif, por exemplo, quando se soube da injeção de 1100 milhões de euros por parte do Estado, chegou a temer-se estar perante um novo caso BPN, uma ideia errada. A confiança na banca, e no caso específico do BPI, que também recorreu à ajuda do Estado, já foi restaurada?
Penso que a primeira coisa a ter em conta é que os bancos não são todos iguais. A situação é muito diferente de banco para banco. Aquilo que podemos constatar é que os depósitos bancários, em Portugal, têm continuado a crescer. Ao longo de toda esta crise, e mesmo com problemas em algumas das instituições, os depósitos bancários continuaram a crescer, ao contrário até do que aconteceu em outros países europeus. Relativamente à maioria dos bancos, a confiança manteve-se sempre. Aliás, um dos pontos fortes do caso português é exatamente a manutenção da confiança dos depositantes nos bancos. Isto é de salientar porque, em vários bancos portugueses, têm muita importância não só os depósitos dos portugueses que vivem em Portugal como também os depósitos dos portugueses que vivem noutros partes do mundo, que eram até suscetíveis de ter menos confiança em Portugal pelas notícias que liam na imprensa internacional. Mas mesmo assim, pela ligação muito forte que têm com as instituições financeiras, pela confiança que têm nas pessoas com quem interagem, o volume dos depósitos de não residentes portugueses também se manteve e, em alguns casos, até cresceu. Um dos pontos fortes do caso português é exatamente a confiança dos depositantes no sector bancário.

A estrutura acionista do BPI sofreu uma alteração recente: o reforço de Isabel dos Santos e do La Caixa e a saída dos brasileiros do Itaú. Pergunto-lhe se o BPI ficou a perder com a troca ou se sentiu alguma diferença, alguma alteração a nível de autonomia na gestão do banco.
O acionista que saiu é um dos maiores bancos do mundo, é o maior banco da América Latina, é o maior banco do Brasil, é um grande sucesso como empresa e como banco, é uma instituição pela qual tenho o maior respeito. Obviamente que é melhor ter um parceiro desses a bordo do que não ter, essa questão é óbvia. Aprendi muito com o Itaú, não só em conversas, mas também daquilo que fui observando da estratégia do Itaú. Foi um contributo muito útil e muito importante, enquanto durou, para o BPI. Mas penso que foram muito bem substituídos pelo reforço da posição de dois acionistas – o grupo La Caixa, que aumentou a sua participação, e a eng.ª Isabel dos Santos, que também aumentou a sua participação. A Allianz manteve a participação que tinha. De facto, tínhamos uma estrutura acionista muito rica, que conseguiu ultrapassar com sucesso a saída de uma entidade tão forte como o Itaú. O La Caixa é o maior banco de Espanha, o Santander e o Bilbao Vizcaya, em termos consolidados, são maiores porque têm atividades internacionais, mas em Espanha o La Caixa é o maior grupo financeiro. A Allianz é a maior seguradora da Europa e uma das maiores do mundo, e a eng.ª Isabel dos Santos tem uma presença muito forte não só em Angola mas também em empresas portuguesas. O banco continua a ter uma estrutura acionista fortíssima, que nos dá um grande apoio. Um dos pontos fortes do BPI é a força da sua estrutura acionista.

Um cenário recorrente quando se fala na banca portuguesa é o de fusões e aquisições. Já houve vários episódios envolvendo o BPI. Esse cenário faz mais sentido neste momento?
Eu penso que não vai acontecer. Não estou a antecipar que vão ocorrer operações desse tipo no sector bancário tão cedo, embora, se continuar a diminuição do negócio bancário em Portugal, o normal em mercados em que há uma diminuição da atividade é haver um reforço da concentração e da consolidação, reduzir o número de intervenientes e fazer alguma racionalização. Mas os bancos portugueses têm vindo, cada um, a fazer o seu esforço de racionalização. E a maior parte dos bancos tem uma atividade internacional significativa que ajuda a compensar a diminuição do negócio em Portugal.

Um dos maiores players é o BCP, que já teve dias melhores. O BCP e o BPI têm uma história de namoro, antiga, que nunca chegou a casamento. Ainda assim, não vê essa hipótese como plausível no curto ou médio prazo?
O médio e o longo prazo a Deus pertence e, portanto, não faço a menor ideia do que pode acontecer. Mas gostava de acrescentar que tenho muito respeito e muita consideração pelo dr. Nuno Amado e pela equipa que ele constituiu. O BCP, claramente, entrou numa fase diferente e mais positiva do que aquela a que se estava a referir.