“Se as circunstâncias se mantiverem fará sentido manter a coligação nas legislativas”

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Fotografia de Vítor Rios/Global Imagens
Entrevista feita com Hugo Neutel/TSF

Entrevista com Nuno Melo eurodeputado do CDS PP

É advogado e eurodeputado, desde 2009. Nuno Melo é um dos rostos mais conhecidos do CDS-PP, sempre próximo da liderança de Paulo Portas. Nasceu em Vila Nova de Famalicão, há 48 anos, e é o número quatro da lista Aliança Portugal, que reúne os candidatos dos partidos do governo – PSD e CDS-PP – às eleições europeias do próximo dia 25.

O luxemburguês Jean Claude Juncker é o candidato do Partido Popular Europeu, a sua família política, a suceder a Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia. Porque é que é preferível para Portugal ter Juncker e não Martin Schulz na Comissão Europeia?
As razões são muitas e óbvias, a começar pela proximidade de Juncker a Portugal e pelo que Schulz significará no plano institucional da União Europeia. Durante alguns anos, os socialistas invetivaram contra o chamado eixo franco-alemão e condenaram o predomínio alemão no processo decisório europeu. Neste momento, Martin Schulz representa um alemão e um político que integra o governo alemão, o que significaria associar o peso institucional de um alemão à presidência da Comissão Europeia. Com uma agravante, até do ponto de vista político. António José Seguro tem avançado como a mutualização da dívida, como solução milagrosa para os problemas do país. Mas, não só António José Seguro já a tinha rejeitado, como recentemente, em debate com Jean Claude Juncker, Martin Schultz veio dizer que recusaria os eurobonds. Nestas eleições europeias, teremos o paradoxo de António José Seguro, por um lado, defender a mutualização da dívida mas, por outro lado, patrocinar com o seu apoio um candidato à presidência da Comissão Europeia que rejeita a única solução que ele vê para Portugal. Pelo contrário, Jean Claude Juncker foi chefe de governo durante anos no Luxemburgo, um país pequeno, mais próximo de Portugal, com uma enorme comunidade portuguesa (cerca de 25% da população é portuguesa), é amigo de Portugal e fez várias declarações a favor de Portugal. Até por isso, estou convencido de que os socialistas o preferirão.

Os debates não mostram grandes diferenças entre os dois candidatos.
Mostram imensas diferenças, até do ponto de vista da responsabilidade na gestão dos recursos públicos, da criação de emprego e captação de investimento, que não passa por despesa pública, numa marca muito nítida em relação a Martin Schultz. Por outro lado, Juncker surge com uma muito maior compreensão no discurso político relativamente às circunstâncias dos países intervencionados do que o alemão Martin Schultz. O que se compreende, por força das suas próprias circunstâncias. Martin Schultz representa um dos partidos do governo alemão. Sabemos que no nosso contraponto da dicotomia austeridade versus menos austeridade, está esse governo alemão, logo, está também Martin Schultz.

Atribuir essa importância toda ao presidente da Comissão Europeia não é apenas uma das ilusões que se está a tentar criar ao longo desta campanha eleitoral? A Comissão Europeia tem perdido poder e prestígio e está longe de ser um governo supranacional. Ganhe quem ganhar não serão os governos dos países mais poderosos, nomeadamente o alemão, a continuar a decidir o futuro dos países do sul? Continue reading ““Se as circunstâncias se mantiverem fará sentido manter a coligação nas legislativas””

O país acordou a perder

Opinião

Artigo de opinião publicado em Dinheiro Vivo

O país deitou-se com António Costa candidato a líder do PS e candidato a sucessor do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e acordou com António Costa recandidato de si mesmo à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O país acordou claramente a perder.

E ficou a perder porque estando este Governo a prazo, e não há pior para quem governa e para quem é governado do que viver a prazo – é mais difícil confiar, acreditar, respeitar e fazer -, estando este Governo preso por arames, é urgente que surja uma alternativa de governação.

Goste-se ou não de António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa não é um messias, mas é uma alternativa de poder forte, mais forte do que António José Seguro. E, mais importante, é uma alternativa ideológica ao Governo, ao PSD, a este PSD.

Se há coisa que ficou clara com Passos Coelho e Vítor Gaspar, é que agora já não há centrão em Portugal, não há confusão possível entre este PSD e o PS, já não é quase indiferente votar num ou noutro. A dimensão ideológica deste Governo tornou tudo mais claro para quem vota. Isso é bom.

E o país precisa de propostas diferentes, de confronto, de debate. O PS deve agarrar na sua ideologia, mostrar que a tem, aproveitar o espaço que este PSD lhe deu, organizar-se e apresentar as suas ideias ao país e encontrar um líder forte.

No caso de António Costa, este ‘não’ à liderança do PS é meramente circunstancial, é mais uma questão de jogo político. O próprio terá avisado o atual secretário-geral que disputará o lugar se Seguro não souber unir o partido. O quê?! Unir o Partido Socialista?! Mas alguém quer saber disso, união de um partido não é claramente um problema que interesse nos dias de hoje, é antes uma desculpa tática para um compasso de espera que António Costa preferiu fazer. Esta hesitação só veio prolongar um pouco mais a crise política e atrasar a iminente queda do atual Governo.