Jornalismo

Encontrei este vídeo no blog do Pedro Rolo Duarte e fiquei curiosa. Ultimamente, leio muito sobre o futuro do jornalismo e sobre o digital, e a oradora é do Guardian, um dos meus jornais preferidos e, sem dúvida, o meu site de notícias.

Eu sei que sou interessada, que é quase uma hora, que não temos tempo, que nem todos querem saber do assunto, mas valeu todos os minutos. Por isso, partilho na esperança de que alguém desfrute como eu.

No fundo, isto de ser jornalista não é tão fácil quanto imaginam, mas é um privilégio viver esta revolução na minha profissão. Desculpem lá este momento e o estrangeiro, but a journalist is a truth teller, a sense maker anda a explainer ❤

O Banif é um novo BPN?

Jorge Humberto Correia Tomé, presidente executivo do Banif SGPS,SA

Texto escrito com Tiago Figueiredo Silva
Texto publicado no Dinheiro Vivo.
Foto de Hélder Santos/Global Imagens

Se não nos estiverem a mentir e se o Banco de Portugal fizer o seu trabalho, é isto:

Passas, champanhe e a notícia de que o Governo recapitalizou o Banif em 1,1 mil milhões de euros. A poucas horas da passagem do ano, são publicadas mais de 150 páginas de densa informação, que se fosse possível resumir numa única frase, seria assim: “o governo vai injetar 1,1 mil milhões de euros para evitar a falência do Banif”.

A operação surpreendeu pelo montante em causa, muito acima do antecipado por alguns analistas – o BPI previa metade -, mas também pelo envolvimento zero dos acionistas privados, pelo menos numa primeira fase, o que fará com que o Estado se torne accionista com quase 99,2% da instituição. O Governo vai injectar 1,1 mil milhões de euros, 700 milhões através da subscrição de ações e 400 em instrumentos de capital contingente (os CoCos) e só mais tarde – até junho -, os acionistas serão chamados para um aumento de capital de mais 450 milhões de euros (150 serão usados para reembolsar os CoCos). Por isso, até lá, o Estado ficará com 99,2% do capital do Banif e mesmo depois, isto se os acionistas acorrerem ao aumento de capital, só reduz para 60,57%, mantendo ainda 49,4% dos direitos de voto.

Estes factos suscitaram dúvidas sobre se o Banif não seria um novo caso BPN, cujo buraco poderá já chegar aos sete mil milhões de euros. No final desta semana, a oposição veio confirmar o receio de esse risco existir e acusou o Governo de opacidade na operação. Mas afinal essas suspeitas fazem sentido? O Dinheiro Vivo ouviu banqueiros e analistas da banca e todos, sem exceção, recusaram essa comparação.

“O BPN era um centro de atividade criminosa, o que, tanto quanto se sabe, não existe no Banif, que tem, isso sim, um problema de falta de dinheiro, de inexistência de acionistas com capacidade para capitalizar a instituição”, adiantou um administrador de um banco. Na sua opinião, situações como a inexistência de garantias, operações duvidosas de concessão de crédito e operações fraudulentas com offshores, como as que aconteceram no BPN com Oliveira e Costa, são hoje praticamente impossíveis de acontecer: “O Banco de Portugal está dentro dos bancos, controla tudo. Por outro lado, de acordo com as novas regras comunitárias, o Banif passará a ser diretamente supervisionado pelo Banco Central Europeu (BCE)”, justificou o banqueiro.

Esta opinião é partilhada por Steven Santos, account manager da XTB. Segundo defende, “o processo de recapitalização do Banif insere-se num contexto de reforço dos rácios de capital exigidos pela nova regulamentação bancária na Europa. Ao abrigo da linha de recapitalização disponibilizada pela troika, o Banif segue os passos do BCP, do BPI e da CGD, não sendo salvo por gestão danosa”.

Um facto que distingue o caso do Banif do dos restantes bancos intervencionados é a entrada direta do Estado no seu capital. “Ao contrário do BPI e até do BCP, o Banif não tem um núcleo duro de acionistas com capacidade de investir”, explicou outro banqueiro. As herdeiras de Horácio Roque, o fundador do banco – duas filhas e a ex-mulher Fátima Roque – mantêm um conflito em tribunal por causa da herança. Numa primeira fase, o Estado assume quase 100% do capital do Banif e só daqui a seis meses, na sequência de um aumento de capital destinado a privados, espera poder perder o controlo do banco. Neste momento, não há qualquer garantia de que o aumento de capital seja bem sucedido. Os acionistas do Banif Rentipar (família Roque) e Auto-Industrial já se comprometeram a subscrever 100 milhões e o BES 50, mas ainda está por garantir o restante. Nesse caso, o Estado juntará mais um banco ao universo CGD.

Outra diferença entre Banif e BPN, além da gestão competente, é que o Estado é remunerado pelo empréstimo de 1,1 mil milhões de euros. As previsões apontam para um encaixe de 333 milhões de euros com a recapitalização – 261 milhões em dividendos, 29 milhões com a venda de ações do banco e 43 milhões que o Banif vai pagar em juros pelo reembolso das CoCos.

Outro ponto pacífico entre os especialistas ouvidos pelo Dinheiro Vivo é o de que o Governo fez bem em não deixar cair o Banif. “O Estado agiu de forma a proteger a integridade e confiança do sistema financeiro”, disse Pedro Lino, CEO da corretora Dif Broker.

Na opinião de um administrador de banco, o risco sistémico do Banif “é sempre algum”: “O Banif passará a ser supervisionado diretamente pelo BCE e mesmo assim o Governo interveio, o que pressupõe o entendimento de que o risco existe”.

Natal em Amesterdão

Por razões várias, o nosso Natal passou a ser assim, no ano passado em Londres, no próximo logo se vê. Tenho uma certa tendência para insistir no que gosto muito e, por isso, este ano, estive em Londres cinco vezes, mas Amesterdão valeu bem a pena.

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A cidade é bonita e fácil – no final, já não precisávamos de mapa – e gostei do despojamento destes holandeses: o maior shopping da cidade é mais pequeno do que as Amoreiras, as lojas também são bem mais pequenas que as nossas, até o ringue de patinagem numa das principais praças da cidade é mini; e eles andam para todo o lado de bicicleta, de ténis e uggs e sempre com muita pinta.

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Pois foi, Amesterdão ficou-nos no coração, por nós voltaríamos já na próxima semana. Curtimos os passeios a pé e que nos deixavam exaustas ao final do dia, a casa de chá da nossa rua, o Van Gogh, temporariamente transferido para o Hermitage, os churros e panquecas e as sopas de tomate com manjericão; as pausas no Starbucks à procura de chá e de internet, o passeio de barco pelos canais, as idas ao indiano da rua, a loja italiana de roupa que descobrimos, as tardes de patinagem no gelo, as luzes e as pessoas nas ruas, as sessões de mimo e de cumplicidade incrível que já temos as duas, as chuvadas, enfim, curtimos muito tanta coisa que nos trouxe mais este Natal. ❤

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Pronta para 2013, venha ele, amanhã regresso (e sobre o caso de Artur Baptista da Silva, gostaria apenas de dizer que poderia ter acontecido a qualquer um. Viver para aprender. Agora, chega de dramas e de auto-flagelação. Seguir em frente, melhorar, porque, felizmente, o jornalismo, o bom jornalismo, será cada vez mais útil e necessário).

Joe Berardo: “Este Governo está a perseguir as pessoas do dinheiro”

Entrevista - Joe Berardo

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel
Fotografia de Diana Quintela

É dono de uma das maiores fortunas do país. José Manuel Rodrigues Berardo é o sétimo filho de uma família da Madeira, onde começou por trabalhar a regular garrafas e a trabalhar em provas de vinho.
Aos 18 anos parte para a África do Sul onde dá largas ao espírito empreendedor. Aposta no negócio do ouro, e ganha. A partir daí entra em vários sectores: diamantes, petróleo, papel, banca, entre outros.
A notoriedade que alcançou naquele país, deu-lhe um lugar no conselho consultivo do antigo presidente Pieter Botha. Nos anos 80, regressa a Portugal, onde faz vários investimentos. É acionista de referência do BCP e da ZON.
É dono de uma das melhores e maiores coleções de arte moderna da Europa, é aliás um colecionador compulsivo, um hábito que vem desde a infância, quando juntava selos, caixas de fósforos, ou postais de navios que atracavam na Madeira. José Manuel Rodrigues Berardo tem 68 anos, é mais conhecido como Joe.

As notícias sobre a sua situação financeira não param. Há dias foi noticiado que a CGD, o BES e o BCP, exigem que pague uma dívida de mais de 400 milhões de euros, no processo que opõe o BBVA à Metalgest, de que é dono. Como é que vai pagar?
Não tem nada a ver com o como vai pagar, pois isso não é verdade. É falso que tenho esse problema dos bancos estarem a pedir-me o dinheiro. Temos acordos diversos, mas está tudo em dia. Como qualquer outra pessoa, se tem uma dívida tem a segurança e há acordos. Não está em default. Ninguém me está a pedir dinheiro.

Portanto, essa dívida de 400 milhões de euros não existe?
Haver uma dívida é uma coisa. Não vou declarar quanto é, se é isso, ou mais, ou menos. Agora, a informação está errada. O que aconteceu foi que o BBVA dizia que eu tinha uma dívida de parte de três milhões de euros, há cerca de 12 anos, quando houve uma companhia da bolsa que foi vendida ao BBVA. Nessa altura, eles fizeram uma fatura incorreta pelos serviços que nos prestaram para melhorar o balanço deles. Eu não estava a par disso. Uma vez veio uma fatura dessas, alguém me veio perguntar e eu disse que não tínhamos essa dívida e mandámos a fatura para trás há 12 anos. Então a coisa andou até que, recentemente, fomos notificados de que tínhamos uma divida de três milhões, nem fui a tribunal. Eu não percebo bem como é que isto acontece hoje em dia. Penhoraram-me dois quadros e vamos a tribunal e ver o que é que se passa.

Então, as tais notícias que davam conta da penhora de automóveis…
Está resolvido, foi o que eu disse. É uma injustiça. Já tínhamos dado uma garantia e agora temos de ir para tribunal e defendermo-nos. Eu não estou a dever o dinheiro. Quando eu estou a dever dinheiro, eu pago.

Mas notícias referem que está totalmente endividado.
Totalmente endividado?! O que quer dizer isso? Se ler tudo, a revista diz que o tribunal diz que já está resolvido.

Além do BBVA, também outros bancos credores podem avançar para processos de penhora?
Como é que eles podem avançar se está tudo resolvido? Só se não houver cumprimento e até agora..

Mas, segundo o BBVA, citado pelo Correio da Manhã, o senhor está “totalmente endividado, estando o seu património, pelo menos o que até agora se conhece, totalmente onerado”. É verdade?
Eu não vou discutir essas coisas que não são verdade.

Não é verdade que está totalmente endividado?
Temos garantias, como toda a gente. Hoje em dia, no Banco de Portugal, quem tem crédito tem que dar garantias. Quando inicialmente fizemos alguns dos empréstimos, só tínhamos as ações como garantia, foi o que foi acordado. Mas como eu já fui administrador de um banco, sei que as coisas mudam e então eles disseram para arranjar mais garantias, embora não isso estivesse no acordo inicial. Como sei que tenho de respeitar as coisas e não fugir dos problemas – podia dizer que não dava mais garantias e pronto, eles não podiam fazer nada – dei mais garantias. E estou contente por isso.

Então a sua relação com os bancos está normalizada desde que reforçou as garantias tal e qual os bancos pediram?
Sempre estiveram normalizadas. Estivemos foi em negociações.

E já terminaram essas negociações?
Por enquanto, sim.

Quando?
Já foi há tanto tempo.

E recentemente não houve qualquer pedido de reforço?
A única coisa que houve foi o BBVA.

Então as noticias sobre a sua falência são manifestamente exageradas?
Não vou estar a discutir coisas que não existem. Já ando nisto há tantos anos. Ainda há pouco tempo disse que o emigrante que venha para Portugal fazer coisas tem de trazer duas fortunas: uma para ficar e outra para especular. E essa da especulação foi complicada e temos muito que aprender.

Mas a verdade é que com a crise o seu património desvalorizou bastante. A participação que tem no BCP já não vale hoje o mesmo, o seu património imobiliário também não.
Sem dúvida. Mas tenho outros que estão bem valorizados.

Qual é a sua verdadeira situação financeira?
Muito boa.

Continua um homem rico?
Não digo um homem rico, mas um rico homem. Não sei qual é a diferença, mas pronto. [risos]

Não foi forçado a vender ativos para pagar as suas dívidas?
Por enquanto, não.

Nem teme que isso possa vir a acontecer?
Não vou discutir um problema que não existe agora, quando chegar a altura dessa situação, vamos ver.

Mas prevê que essa altura possa, de facto, chegar?
Não sei. É como Portugal com as dividas que tem, o que é que vai acontecer se não puder pagar? Vamos negociar nessa altura. Quando chegar a altura de pagamentos, se você não pagar, vai negociar.

Está a aproximar-se o momento-chave para essas negociações?
Não.

Neste verão acompanhou o aumento de capital do BCP e reforçou a sua participação. Para quanto?
Não tenho aqui comigo. Não vou especular.

Mas é uma participação qualificada inferior a 5%?
É uma participação qualificada.

Esse investimento é para manter?
De momento, o que é que eu posso fazer? Vou tentar manter.

Para não perder dinheiro, é isso?
Não, a pessoa só perde quando vende. Há poucos meses foi o aumento de capital. Eu não pedi dinheiro a ninguém para ir ao aumento de capital.

Como é que fez face a este investimento no BCP?
Comprando.

Mas com que dinheiro?
Com o meu.

Não foi dinheiro que resultou da venda de 32% da Sogrape?
É o meu dinheiro. Mesmo que não tivesse vendido a minha posição na Sogrape.

Não teve que se endividar?
Não.

E qual é a sua opinião sobre a atual gestão do BCP, liderada por Nuno Amado?
Infelizmente, seja qual for o presidente do conselho de administração, o sector financeiro está em dificuldades.

Confia na gestão de Nuno Amado?
As coisas estão tão difíceis. Ele já dirigiu um banco e teve fantásticos resultados. Não há razão para ele não continuar até que a situação financeira internacional melhore.

Arrepende-se do seu envolvimento na guerra do BCP?
Não vale a pena pensar em “se”. Arrependimento não tenho. Quando começou a guerra do BCP, um dos grandes desgostos que tive na minha vida – tinha uma grande amizade e consideração pelo Jardim Gonçalves, que também é da Madeira -, fiquei muito triste. É uma pena que os juízes não tenham as leis suficientes para andarem mais rápido. Quando houve esse princípio, eu podia ter saído. Na guerra que começámos na assembleia geral, fizeram-me uma oferta através da qual faria muito dinheiro se tivesse saído. E tive uma reunião com o conselho de administração, o meu filho e um advogado, e o meu filho disse assim: “Não há ninguém que compre a nossa dignidade. Nós sabemos que vamos para uma batalha dura, mas isto tem que ser esclarecido”.

Gastou muito dinheiro à conta dessa batalha dura.
É verdade, mas também o dinheiro para que é que serve? Se não se vai à procura também de justiça… Tenho estado envolvido na briga pró-minoritários há muitos anos. E continuo a brigar porque acho que em Portugal, os minoritário não têm voz ativa. Os acionistas têm de ser tratados devidamente.

Falou dessa amizade com Jardim Gonçalves. O fundador do BCP moveu-lhe um processo por difamação.
E ganhei.

Acabou por ser absolvido.
Eu ganhei! Ele estava errado. Eu não estou arrependido. Eu tentei fazer a coisa certas mas as pessoas não entenderam. Um ladrão é um ladrão.

Acusou Jardim Gonçalves de várias coisas, entre elas de fazer aldrabice.
E é verdade.

É recorrente o cenário de fusões e aquisições na banca portuguesa. Nesta altura, dadas as circunstâncias atuais, quando há bancos, como o BCP de que é acionista, que tiveram de pedir dinheiro ao Estado para atingir os requisitos de capital exigidos pela autoridade bancária europeia, este é um cenário a ser considerado?
A ajuda que está a ser dada a todas as instituições financeiras é uma nacionalização indireta. Só não foi feita uma nacionalização porque se o Governo fizesse agora uma nacionalização seria mau para a contas públicas. Esta ajuda que está ser dada é uma nacionalização.

Mas uma fusão entre o BCP e o BPI é possível?
Com as condições da troika e do Banco de Portugal eles estão com a mãos amarradas. Só com o seu consentimento. Nem o conselho de administração, nem os acionistas têm o poder para isso.

A atividade de especulação da bolsa é aquela que reserva exclusivamente para si e para o seu filho. No meio desta crise, continua a ter a mesma sorte e a encontrar boas oportunidades para especular?
Não tantas. Primeiro, o que é a especulação? Não é comprar uma ação e pôr lá o dinheiro e depois vender com ganho ou prejuízo. Uma especulação é comprar ou vender coisas que não existem, como “futures”. Há pouco tempo, Hugo Chávez disse que tinha 900 toneladas de ouro. O que ele tinha comprado eram 900 toneladas de “futures”. Isso é que é especulação. Nas moedas, no trigo, no milho, que é tudo controlado pela Goldman Sachs. Não há maneira deste mundo melhorar até que esse problema seja resolvido.

Qual problema?
A especulação através de “futures”, das matérias primas. Há poucas pessoas que conhecem esse problema mas é o problema mais grave da humanidade. Considero que é o maior roubo da humanidade. A especulação em futuros são triliões de dólares “that they trade every day”.

Tem apostado em quê na bolsa?
Não vou discutir os meus negócios. Tenho feito, não tanto como antigamente, mas há sempre opção. Agora, eu nunca quis vender o que eu não tinha, acho que isso devia ser expressamente proibido, tanto na subida como na descida, temos de ir para os valores antigos, comprar e vender.

Falou da importância dos acionistas minoritários. A CMVM, o regulador do mercado de capitais, não tem feito o suficiente na defesa dos interesses dos pequenos acionistas?
A CMVM e o Banco de Portugal só podem actuar pelas leis que têm. O juiz só pode ir de acordo com as leis que tem.

É o quadro legal que está incompleto.
Exatamente e ninguém vê isso. Tenho soluções para meter Portugal entre os melhores da Europa e este é o momento ideal, mas não há coragem.

Mas que soluções são essas?
Temos é de fazer leis como Londres, para trazer as pessoas com dinheiro para Portugal, Mas para isso temos de arranjar melhor cultura, temos de arranjar hotéis melhores.

Mas a mais valia de Londres é que é uma praça financeira muito forte.
Porque as pessoas têm o direito de viver lá por seis meses e todo o dinheiro que seja feito fora de Inglaterra chega lá e não paga impostos. Temos de aprender com quem sabe. Por exemplo, a zona franca da Madeira acabou. Mas acha que as pessoas dos off shores acabaram? Não! Acho que a CGD foi para as Bahamas, os outros bancos para aqui e para acolá. Portanto, matámos a possibilidade de ter a galinha dos ovos de ouro.

Falou com governos anteriores das suas propostas. E com este governo já tentou?
Não consigo. Não consigo obter resposta. Tenho a fábrica do tabaco e com as alterações à fiscalidade do tabaco de enrolar, só na Madeira, perdemos com isso 35%. Isso significa fiscalmente uma perda, só para a zona da Madeira, de cinco milhões de euros. Escrevi ao ministro das Finanças e não tive resposta. E a zona da Madeira vai perder as vantagens que tinha com o preço do tabaco.

Não teve qualquer contacto com este Governo, apesar das tentativas que fez?
Escrevi ao primeiro-ministro umas oitos cartas e ele nunca respondeu.
Numa altura, escrevi ao presidente da América e ele deu-me resposta. No tempo do Nixon, ainda eu estava na África do Sul.

Porque é que acha que Passos Coelho não lhe respondeu?
Anda muto ocupado. Tem a mão cheia de trabalho. Na África do Sul, um pais muito maior, fui um dos 21 apontados como advisor. Mas este Governo talvez não precise, para quê tantas pessoas a dar opiniões? Eles têm tido conferências e têm-me convidado para ir a conferências, mas para ir ouvir a conferência, o que já está feito, o que eles querem dizer, não vale a pena perder tempo, nem vou. Agora, se eles quiserem que dê a minha opinião, como acho que se devia atingir um objetivo relativamente fácil, para melhorar a vida dos portugueses, comose diz em inglês, you take the bull by the hornes. Não é só reduzir e reduzir. O que é que se vai fazer no futuro aqui em Portugal? O que será o futuro dos seus filhos, dos meus netos? Eu não posso continuar aqui nesta situação. Eu vim para aqui com o sonho do mercado comum, e realmente foi verdade, agora estragámos a nossa produtividade.

Mas pondera a possibilidade de abandonar o país, de deslocalizar alguns investimentos?
Isso não há duvida. Então o que é que se pode fazer? Vou esperar até ao próximo ano para ver este novo orçamento, mas vou ter de decidir. O conselho que o Governo dá é para emigrarmos. Tive na Fundação mais de 20 mil bolsas de estudo e mais de 52% dos bolseiros já não estão em Portugal. Então para que é que gastei dinheiro a apoiar as pessoas para melhorar a situação de Portugal. Tive a gastar o meu dinheirinho e agora vai para países com melhor rentabilidade que os nosso. Acho que isso uma pena.

É capaz de seguir o caminho dessas pessoas?
Eu acho que sim. Eu tenho que ver o futuro dos meus netos. Este Governo está a perseguir as pessoas do dinheiro. É um pecado mortal a pessoa ser rica. Não é ajudar os pobres a serem ricos, aqui é os ricos que devem ficar pobres.

Mas pelo mundo fora têm sido várias as vozes a defender o aumento de impostos para os mais ricos. Está disponível para pagar mais impostos em Portugal?
Eu estou a pagar e se estou aqui tenho que ajudar. Mas não concordo com a maneira com eles fazem. Isto nem 8 nem 80.

Mas estaria disponível para pagar mais impostos?
Por mim não é importante mais um pouco, menos um pouco. Eu não sou “the average”. Estou preocupado é com o futuro dos homens de negócios deste país, que vão levar os negócios para outro lugar.

É conhecida a sua paixão pelo Benfica. Em 2007, chegou até a lançar uma OPA para controlar a SAD do clube.
Não. Foi para uma percentagem de 30%. Nunca quis controlar o Benfica. Não tenho adaptação para ser presidente de um clube. Aquilo é uma escravatura.

Não sonha vir a ser presidente do Benfica um dia?
Nunca.

Está satisfeito com o que viu esta época no seu clube?
Felizmente, estamos chegando a um objetivo de futebol muito bom e muito bonito.

Jorge Jesus deve continuar?
Ainda há poucos dias disse que o bom treinador é aquele que ganha. E ele tem ganho.

Vamos falar da sua coleção de arte moderna, que está avaliada, pelos últimos números da Christie’s, em mais de 300 milhões de euros e é elogiada por críticos de todo o mundo. Há poucas semanas, soube-se do interesse de um empresário nova-iorquino com ligações à Rússia que terá contactado o Governo português para comprar todo o acervo. Na altura disse que desconhecia o valor da proposta. Já o conhece?
Não. Já pedi ao Governo para me dar uma cópia dessa carta que mandaram para os bancos e não mandaram para mim.

Mandaram aos bancos que têm a coleção como garantia?
Não é bem assim. Eles mandaram para os bancos também a informar que estava a fazer uma exposição em Miami, a dar a entender que eu estava a fugir com a coleção. O que acontece é muito simples: o Governo tem uma opção de comprar a coleção Berardo por 300 milhões de euros por um período de 10 anos. Tenho tido visitas que avaliam a coleção por mil milhões de euros. E alguém pensou: “vamos fazer a oferta ao Governo”, o Governo exerce a opção e leva-se a coleção por esse valor.

O Governo tem a opção mas a coleção é sua?
Sim, mas eles podem exercer a opção a qualquer momento. Mas eu ando nisto há muito tempo e a opção só é válida para a coleção ficar toda em Portugal. Sem a minha autorização eles não podem vender se não for para a coleção ficar em Portugal.

Esse acordo tem um prazo de validade que acaba em 2016. Mesmo depois do final do acordo mantém-se a obrigatoriedade da coleção ficar em Portugal?
Claro. Só com a minha autorização ou da minha descendência, se me acontecer alguma coisa, é que os estatutos podem ser mudados.

E estaria disponível para alterar os estatutos?
Não vou falar de uma coisa que de momento é válida até 2016. Tanta gente que me tem vindo falar, mas até 2016 tenho que cumprir a minha palavra.
Se o Governo quiser exercer a opção, que não tem dinheiro para isso, vai ter que deixar também a coleção em Portugal.

E tem vontade para renovar esse acordo ou estender o prazo?
Está no acordo que tempos antes do acordo acabar vamos ter que ver qual é o futuro da coleção. Imagine que me dizem: “Queremos ficar mas não temos dinheiro para comprar”. Ok, quantos anos querem mais? É negociável.
Para mim até 2016 está fechado, estamos em 2012. O Governo pode mudar até lá. Não vou perder tempo na minha cabeça.

A sua coleção está à venda ou não?
Não. Não pode. Tenho tido pessoas que vieram de Israel, de Inglaterra, de Nova Iorque, da Rússia, mas a minha coleção não está à venda. Porque eu não quero também. Isto é parte da minha vida! Eu estou a colecionar desde os 10 anos, nunca vendi uma caixa de fósforos ou um postal. Tenho tudo ainda comigo, tenho mais de 40 mil peças, tenho quatro museus abertos ao público por minha conta.

Em relação a este episódio da carta que foi dirigida ao Governo e não a si. Disse na altura publicamente que tinha ficado incomodado. O Governo já falou consigo?
Eu fiquei admirado que alguém receba essas propostas e o Governo nunca tenha falado comigo. Entretanto, já falei com o secretário de Estado da Cultura que me disseram que me iam dar uma cópia dessa carta. Mas ainda não deram. Não interessa, já sei a carta de cor.

E com o empresário que fez a proposta, já falou?
Não falei nem vou falar. Não estou interessado.

Olhando para a sua terra, para a Madeira. Como vê a liderança de Alberto João Jardim. Ele deve continuar?
O Alberto João Jardim ainda é um ano mais velho do que eu. Ele teve um papel muito importante no meu regresso a Portugal, mas eu acho que não pode continuar, tem que haver sangue novo. O tempo de dirigir a Madeira como no passado, com bocas, isso já passou. Acho que ele devia sair pela porta da frente e os madeirenses agradecerem pelo trabalho que ele tem feito.

António de Melo Pires: “Devemos agradecer aos alemães e não apontar-lhes o dedo”

Entrevista publicada em Dinheiro Vivo
Entrevista feita com Hugo Neutel, jornalista da TSF
Fotografia de Diana Quintela

Há 30 anos, António de Melo Pires era professor no ensino secundário, hoje lidera uma das mais importantes empresas instaladas em Portugal. A Volkswagen Autoeuropa é muitas vezes apontada como um modelo a seguir, tanto na eficácia da gestão da empresa, como na relação com os trabalhadores.

Em 2011, a fábrica do grupo Volkswagen foi responsável por 4,6% das exportações portuguesas e teve um impacto de mais de 1% no PIB nacional, com um volume de vendas que ultrapassou os 2.200 milhões de euros. Este adepto do Vitória de Setúbal nasceu em Lisboa há 55 anos e é licenciado em engenharia mecânica.
Depois de dar aulas no liceu construiu grande parte da carreira nas Forças Armadas, antes de ingressar, há 20 anos, no grupo Volkswagen. António de Melo Pires é casado e tem três filhos.

Veja aqui o vídeo da entrevista

A Autoeuropa vai terminar o ano com um total de 44 dias de não produção, os chamados down days, o dobro do estimado no início do ano. A empresa não quer despedir e vai avançar com alternativas para fazer face à quebra nas encomendas, como a produção adicional de peças e o destacamento de colaboradores para outras fábricas também da Volkswagen. Estas medidas serão suficientes para evitar despedimentos no próximo ano?
Partimos da premissa de que, a não ser que a situação se agrave muito mais do que estamos à espera, vamos conseguir ultrapassar esta fase sem proceder a despedimentos. Isso faz parte da nossa filosofia, da responsabilidade social do grupo Volkswagen e, portanto, vamos fazer todo o possível para que não aconteçam despedimentos. Primeiro é necessário, dentro da produtiva responsabilidade social, garantir que as pessoas não ficam sem emprego. Segundo, é necessário rentabilizar o investimento que a empresa tem vindo a fazer em todos os seus colaboradores, que custa bastante dinheiro e que nos permitiu, nos últimos anos, chegar, ao topo das empresas do grupo Volkswagen, em termos de qualidade e produtividade. Seria um desperdício proceder a despedimentos, depois, eventualmente, teríamos de recontratar. Vamos fazer de tudo para que isso não aconteça.

Disse que a solução mais fácil seria pegar em 600 pessoas e mandá-las embora. É esse o número de pessoas a mais face às encomendas?
É a nossa estimativa, mas é muito difícil, neste momento e na situação em que o mercado está, prever o que vai acontecer nos próximos meses. Em 2011, fizemos um primeiro semestre muito bom, o problema começou no segundo semestre. Agravou-se muito mais do que aquilo que se estava à espera. É muito difícil hoje dizer o que vai acontecer no mês seguinte, porque o mercado está muito instável. Tudo está a mexer em termos de economia mundial e é extremamente difícil fazer previsões. Vamos continuar este ano a fazer aquilo que fizemos o ano passado: a gerir mês a mês as encomendas.

No final do ano, a produção da Autoeuropa deverá situar-se em quantas unidades?
Cerca de 20% a menos do que no ano passado [aproximadamente 110 mil unidades].

Desde o início do ano, os fornecedores da Autoeuropa já despediram mais de 200 pessoas. Grande parte daquelas empresas não têm o mesmo grau de flexibilidade laboral da Autoeuropa. Não teme que essa dificuldade possa criar dificuldades nessas empresas e por arrasto também no fornecimento da própria Autoeuropa?
Evidentemente que isso é um problema para nós também. Se o fornecedor não está em condições de acompanhar os nossos ritmos de produção e expectativas, obviamente será um problema para nós. Temos vindo, ao longo dos últimos anos, a alertar os fornecedores de que eles deveriam ter ganho sistemas de flexibilidade idênticos aos da Autoeuropa, para permitir fazer face aos ciclos normais da indústria automóvel. Nos últimos anos já tivemos dois ou três círculos de baixa de produção, e eles vão continuar a acontecer.

O desejável seria que houvesse mais flexibilidade laboral na indústria en geral em Portugal?
Penso que nos últimos tempos se deram bastantes passos. Primeiro, hoje em dia, as pessoas têm muito mais cuidado quando olham para o seu emprego porque a situação está extremamente complicada, existe um desemprego altíssimo. Portanto, hoje as pessoas estão mais recetivas a aceitarem outras soluções que não eram possíveis há uns tempos. Portugal tem de se adaptar à economia mundial. Aliás, grande parte do problema que estamos a atravessar hoje foi por incapacidade do poder político e económico, há 20 anos atrás, de ler os sinais do que se estava a passar na economia mundial. Estávamos adormecidos pela quantidade de dinheiro que entrou neste país e alegremente deixámos que este país se desindustrializasse. Não nos apercebemos de que se estava a passar. Hoje, penso que toda a gente está alerta para o problema. Perdemos competitividade e produtividade, e se não recuperarmos não vamos conseguir sobreviver numa economia global. Por isso, as pessoas estão bastante mais alerta para a necessidade de adotar esquemas de trabalho diferentes, que se adaptem à situação atual.

Essa flexibilidade é necessária tanto da parte dos trabalhadores como da parte das administrações, ou não?!
Obviamente! Costumo dizer que o sistema só funciona em equilíbrio. Não podemos ter um sistema desequilibrado e dizer que os trabalhadores têm que dar tudo e a empresa não dar nada. A Autoeuropa só é bem sucedida porque conseguiu atingir um equilíbrio muito bom entre os interesses de todas as partes. E o que nós temos hoje é que, em contrapartida de alguns sacrifícios dos trabalhadores, a empresa também procede a algumas compensações. Aquilo que vamos fazer no próximo ano, que é garantir os postos de trabalho, vai ter um custo bastante substancial para o grupo Volkswagen. Não é só dizer que vamos manter as pessoas em casa, vamos ter de encontrar alternativas e garantir que essas alternativas são, dentro do ponto de vista económico, aceitáveis para a empresa.

Para precisar, em 2013 não haverá despedimentos na Autoeuropa?
Esse é o nosso plano, a não ser que a situação se agrave de uma forma extremamente dramática.

A crise e a agitação social que se vive no país, com greves e manifestações, também aumentaram a instabilidade na Autoeuropa?
Não, nós temos um sistema relativamente equilibrado. Gerimos todas as tensões na sua base, no seu começo, não quando se transformam em grandes problemas. A situação da Autoeuropa é totalmente calma, sem grandes problemas de agitação.

A última greve geral sentiu-se na empresa? Houve trabalhadores a fazerem greve?
Há sempre pessoas a fazerem greve, desde o início da Autoeuropa que existem pessoas que, por opção própria, política ou social, sempre fizeram greve, mas sempre foi um número relativamente reduzido.

Não notou um acréscimo devido à instabilidade e austeridade?
Não, diria que está no mesmo nível.

A austeridade e o aumento da carga fiscal, que provoca uma redução do rendimento disponível das pessoas, reflete-se numa maior dificuldade em obter consensos entre a gestão e os trabalhadores? Algum nervosismo acrescido?
Não diria nervosismo, mas uma preocupação relativamente ao rendimento disponível para fazer face às despesas.

E é difícil obter consensos neste clima?
Não, não é difícil. Ainda estamos, neste momento, em negociações com a comissão de trabalhadores para o próximo contrato e têm decorrido num clima de normalidade. Tanto a comissão de trabalhadores, como a administração e os próprios trabalhadores confiam nas capacidades das partes de chegar a um entendimento, que sempre tem sido benéfico para ambas as partes.

Como é que classifica a relação com a comissão de trabalhadores? Eles fazem propostas construtivas para o desempenho da empresa ou estão preocupados apenas, e isso já não seria pouco, com os direitos dos trabalhadores?
O grupo Volkswagen tem uma ‘Carta de Cogestão’ e a cogestão pressupõe que a comissão de trabalhadores seja consultada numa série de decisões estratégicas para a empresa. Por exemplo, a comissão de trabalhadores é consultada e informada do que é que a empresa propõe em termos de plano de investimentos. Existem muitos outros campos sobre os quais a comissão de trabalhadores tem de ser obrigatoriamente consultada, de acordo com a política interna do grupo Volkswagen. Quando a comissão de trabalhadores não concorda com algum ponto, isso é discutido e chega-se a um acordo.
Encontra na comissão de trabalhadores uma atitude responsável? Absolutamente. Obviamente, existem diferentes pontos de vista, diferentes opiniões, mas sempre chegamos a um acordo.

O facto de os donos da Autoeuropa serem alemães dificulta a relação, considerando a posição assumida pela Alemanha nesta crise europeia em relação aos países endividados?
Absolutamente nada. O grupo Volkswagen é um grupo mundial, tem fábricas em todo o mundo e tem uma rede de interligação muito forte entre todas as unidades de produção. E não é pelo facto de a Autoeuropa estar localizada em Portugal que é menosprezada relativamente a outras fábricas. São colocadas exatamente em pé de igualdade. As fábricas são avaliadas em termos da sua competência para atingir metas de qualidade, produtividade e de custo e isso não tem absolutamente nada a ver com a situação que se vive em Portugal.

E sente dentro da empresa a hostilidade que já existe na sociedade portuguesa em relação aos alemães?
Dentro da empresa não. É um pouco incompreensível a hostilidade que alguns sectores da sociedade estão a produzir relativamente à Alemanha. Historicamente, a Alemanha tem sido o país que nos tem apoiado no desenvolvimento. Mais, os grandes grupos alemães têm investido sistematicamente em Portugal, e investimentos de longo prazo. O grupo Bosch está em Portugal há 100 anos e continua a investir. Só temos que agradecer aos alemães e não apontar-lhes o dedo. As dívidas não são culpa deles, são culpa nossa. Não foram eles que fizeram as dívidas, fomos nós.

Na recente visita de Angela Merkel, teve contactos com a chanceler ou com alguém da sua comitiva?
Com a chanceler não, mas tive oportunidade de contactar com vários elementos da comitiva de empresários que ela trouxe.

E houve alguma mensagem que tentasse transmitir nessa visita?
A mensagem foi de esperança. Muitas vezes temos uma imagem de nós próprios, pior do que os alemães têm. Foi gratificante ouvir alguns empresários alemães insuspeitos, como por exemplo o presidente da Bosch, dizer que Portugal tem dos melhores ferramenteiros do mundo, uma coisa que normalmente não reconhecemos . Pensamos que somos sempre pior do que os outros. Houve uma série de mensagens positivas de empresas alemãs que conhecem bem Portugal e é nisso que temos de nos focar. Temos que elevar o nosso amor próprio. Não somos bons em tudo, mas temos coisas que fazemos muito bem.

Estando Portugal sob intervenção da Troika, há uma preocupação acrescida por parte da casa-mãe na Alemanha? O que tem ouvido dos acionistas?
O grupo Volkswagen tem um conceito de responsabilidade social muito forte. Obviamente, existe uma preocupação da Volkswagen em relação ao que se está a passar em Portugal, e portanto, o programa para evitar despedimentos no próximo ano foi feito com o apoio e suporte da casa-mãe.

Sentiu uma preocupação acrescida face ao risco do investimento?
A preocupação reside em que a estabilidade da empresa seja garantida e que a estabilidade dos empregados da Volkswagen seja assegurada.

O grupo Volkswagen é dos mais competitivos, a nível mundial, no sector em que atua, mas as fábricas do grupo também competem entre si para ver quem recebe o próximo modelo. A Autoeuropa quer vencer uma dessas batalhas para ganhar um novo modelo a partir de 2015. Sem esse novo modelo, a fábrica terá futuro?
Claro que sim. Existem várias hipóteses de modelos e está a ser discutida a sua distribuição por várias fábricas na Europa. Se não receber um novo modelo nos próximos anos não será por isso que a Autoeuropa. Se não for esse, há-de ser outro, a produção, a essência da Autoeuropa não está em perigo.

A Autoeuropa já anunciou que para tentar conquistar esse novo modelo vai fazer um investimento de 49 milhões de euros, que foi considerado de interesse estratégico pelo Governo e que, por isso, vai beneficiar de incentivos financeiros.Já acertou com o Governo os detalhes dos incentivos?
Isso já está a ser discutido com o Governo, nomeadamente com a AICEP. São, de facto, importantes e estruturantes para o futuro da empresa.

Em 49 milhões de euros quanto é que a Volkswagen espera obter em benefícios ficais?
Não posso dar esse detalhe porque isso ainda está em discussão com a AICEP.

Disse que a sobrevivência da Autoeuropa não depende do novo modelo, que será decidido entre o final de Novembro e o início de Março. Mas em que fase é que está?
Esse processo ainda está a decorrer a nível da Volkswagen para vários modelos e várias fábricas. Ainda não existe nada decidido.

Quando é que se espera um decisão?
Penso que durante o próximo ano haverá uma decisão. Mas depende de uma série de parâmetros que ainda não estão muito bem definidos.

A sobrevivência não está em causa mas será difícil manter o atual quadro de 3.600 trabalhadores?
A longo prazo, sim.

O que quer dizer com longo prazo?
Estamos a falar de dois a três anos. Mas os nosso dados são muito competitivos. Hoje, a Autoeuropa tem argumentos extremamente fortes para competir com as outras fábricas, inclusive com as fábricas de Leste. A nível de produtividade, custo da mão de obra e de qualidade somos benchmark. Estamos confiantes que se não for este há-de-ser outro. Algum há-de-vir.

Se em 2013 não entrar um novo modelo em produção, não aumenta a probabilidade de despedimentos?
Mesmo que a decisão de um novo modelo seja tomada já, temos um período de cerca de dois anos e meio até que o novo carro entre em produção. Não é uma coisa que seja para amanhã. O carro não é desenhado, projetado e construído em dois ou três meses, leva pelo menos dois anos e meio até entrar em produção. É um período que vamos ter de tapar com estas medidas adicionais.

Quais são os critérios do grupo para atribuir um novo modelo a uma determinada fábrica?
São critérios estratégicos. Ao obrigo da revolução tecnológica que a Volkswagen está a fazer com as novas plataformas, está neste momento a redesenhar o mapa de que fábricas é que produzem determinados modelos. A plataforma do carro vai ser comum, aquilo que vai mudar é o chapéu, a parte de cima do carro. Portanto, isso vai obrigar a redesenhar complemente o mapa de produção da Volkswagen. São critérios de custo, de produtividade, de qualidade e de logística.

Se a fábrica estiver abaixo da sua capacidade de produção porque as encomendas não são suficientes, como é o caso da Autoeuropa, é um aspeto positivo a considerar?
Obviamente, porque uma fábrica que não tem a sua capacidade utilizada, teoricamente, precisa de menos investimento do que uma fábrica que já está totalmente utilizada. O facto de termos capacidade disponível também é um argumento a favor da Autoeuropa.

Quais são os pontos fortes que a Autoeuropa tem nesta candidatura a um novo modelo?
Temos um indicador de produtividade extremamente elevado.

Que não foi beliscado nesta fase de agitação social?
Não foi beliscado. Temos indicadores de qualidade dos melhores que o grupo tem. Não só ao nível do grupo Volkswagen, mas ao nível da indústria automóvel mundial. Temos um custo de mão de obra que hoje já se aproxima da Europa de Leste. Esses são argumento muito fortes a favor de Portugal. Além disso, temos uma mão de obra altamente qualificada.

Além do investimento que referiu, existem outros previstos para facilitar a candidatura a um novo modelo?
Temos um plano de investimentos anual que incluí uma série de vertentes. Este ano, estamos a falar desses 49 milhões de euros de investimento, mas para o ano voltamos a ter um investimento de mais 60 milhões, sem novo produto. Nunca paramos de investir.

A Autoeuropa exporta a quase totalidade da produção. Até Outubro, o mercado nacional representava apenas 0,6% das vendas. A Alemanha e a China valem quase metade da produção. A China pode, a médio prazo, tornar-se no principal cliente?
Penso que não. Os carros que exportamos para a China sofrem um aumento de custo substancial, não só pelo transporte, mas também pelas barreiras alfandegárias que a China tem, o que limita, à partida, o aumento das vendas no mercado chinês. São carros para um público com alto poder de compra. Não esperamos uma grande explosão de vendas na China. É capaz de haver um crescimento continuado, mas não que permita ultrapassar a Alemanha.

E estão previstos novos mercados?
O conjunto dos mercados mais pequenos são o nosso terceiro cliente. Temos a Alemanha, a China e depois aquilo a que chamamos “o resto do mundo”. 140 e tal países para os quais exportamos pequenas quantidades, mas são muitos países. Temos vindo a atacar esse conjunto de pequenos mercados porque, embora sejam pequenos no seu conjunto, fazem uma grande diferença.

E não estão a apostar em nenhum em particular?
Estamos a estudar a hipótese de entrar com os nossos modelos em alguns mercados, como México, Brasil e Rússia, que está em crescimento. Estamos a trabalhar para ocupar esses mercados.

80% dos carros são exportados a partir do porto de Setúbal. A greve dos trabalhadores portuários tem afetado o escoamento dos carros. Há poucos dias havia 10 mil carros parados. Já têm alternativa? Houve uma notícia não confirmada de que uma das soluções seria a implantação de um terminal dedicado à exportação de carros na área portuária de Sines.
É uma hipótese, não é a solução ideal. Desde o início, a Autoeuropa foi planeada com uma linha férrea direta para o porto de Setúbal. Nunca será a situação ideal fazer esse transporte para o porto de Sines. No entanto, se a situação se agravar colocamos a hipótese de ir à procura de outras soluções.

Já estão em negociações?
Estamos à procura de alternativas. Que será, não só em Portugal, mas eventualmente em Espanha. O porto de Santander não está assim tão longe, também tem um terminal que nos permite exportar por ali.

Quando é que conta ter uma solução para este problema?
Basicamente, há que agarrar nos carros que estão no porto, colocá-los em camiões e transportá-los para outro porto. Podemos fazer isso a qualquer momento. Para evitar custos adicionais, estamos a ver se a situação se desbloqueia.

A localização surge como uma desvantagem da Autoeuropa quando comparada com outras fábricas do grupo Volkswagen. Este aspeto pode ser reanalisado? Faz sentido pensar num aspeto tão estruturante como a localização da fábrica?
Faz sentido, obviamente. Temos custos logísticos superiores aos dos países do centro da Europa, que estão ali ao lado da Alemanha. Não só de transporte do produtos acabado, mas também de transporte de peças. Temos uma desvantagem porque custa mais caro transportar as peças para aqui e transportar os carros de volta. Os nossos mercados estão todos na Europa ou na Ásia. Isso, obviamente, implica custos adicionais de logística. É uma coisa que temos vindo a tentar anular, nomeadamente com a instalação de comboios de transporte da Alemanha diretos a Portugal. Conseguimos uma redução de cerca de 5% no custo. Este foi um esforço para quebramos o paradigma que Portugal está muito longe da Europa. O sistema pode ser melhorado. Se o sistema for otimizado, conseguimos muito mais do que isso. Existe bastante por fazer nesse aspeto.

A linha planeada pelo Governo, que já não é um TGV, é uma linha de alta prestação, poderia também beneficiar a Autoeuropa?
Obviamente que sim. Estes 5% de poupança que referi no transporte por via férrea é considerando que temos de fazer o transbordo de mercadorias na fronteira entre Espanha e França, que nos custa entre duas e três horas e cerca de 15% dos custos. Se tivermos uma linha direta para o norte da Europa que não precise de parar na fronteira esses custos serão otimizados e eliminados. Eu aposto numa redução de 20 a 25% nos custos.

A maioria dos trabalhadores recebeu um prémio de objetivos de 938,23€ referentes a 2011. Também será possível pagar um prémio de produção relativo a 2012?
O sistema é baseado em metas a atingir pela empresa e pelos próprios trabalhadores. Se no final do ano, essas metas forem atingidas as pessoas receberão o prémio. Não há nenhum impedimento para que as pessoas recebam esse prémio.

E como está o nível de cumprimento de objetivos de 2012?
Estamos neste momento a rever os parâmetros. Temos que esperar pelo final do ano e ajustar os valores que vão ser utilizados para calcular o prémio.

É possível manter o nível de pagamento do prémio de 2011, ou a crise, a redução de produção, afetará o valor do prémio em 2012?
Pode acontecer ,no entanto, o bónus não é diretamente proporcional ao volume de produção. Existem outros parâmetros, como o índice qualidade e o absentismo. Aliás, o volume de produção pesa relativamente pouco nessas metas. Não há nenhuma razão para não pagar um prémio que seja equivalente aos resultados que a empresa conseguiu atingir.

Equivalente ao de 2011 ou mais reduzido?
Vamos ter que fechar as contas no final do ano para conseguir chegar a um valor real. Não será eventualmente um prémio tão bom como o do ano passado, mas será um prémio bastante bom porque a empresa continua a cumprir as metas a que se propôs até ao final do ano.

O Governo quer avançar com uma taxa de IRC reduzida para novos investimentos produtivos em Portugal. Se Portugal for autorizado a avançar com tal medida prevê que o grupo Volkswagen aproveite para fazer novos investimentos em Portugal?
É uma hipótese, mas o grupo Volkswagen não se move por lucros imediatos. O grupo Volkswagen e os empresários alemães têm mais um espírito de longo prazo. Não é pelo facto do IRC ter subido em Portugal, como subiu nos últimos tempos, que o grupo Volkswagen deixou de investir em Portugal. A Volkswagen foi bastante penalizada e não deixou de investir em Portugal. O contrário também não vai ser verdadeiro. Agora, acho que é uma medida extremamente importante para poder atrair investimento. Nós precisamos desesperadamente, em Portugal, de investimento. Por isso é uma medida que poderá fazer a diferença.

A Autoeuropa é considerada um modelo em termos de gestão, relação com trabalhadores, produtividade e é uma fábrica competitiva. O que é que poderia ser transposto para o país, para melhorar os resultados e o governo do país?
Diria que a única coisa que o Governo pode fazer é disponibilizar legislação laboral que facilite essa adoção. Mas o Governo não se pode substituir às empresas, não pode entrar numa empresa e decidir como é que a empresa é gerida. Isso é uma tarefa das empresas. Se querem copiar o exemplo da Autoeuropa, não tem segredo nenhum.

Qual a avaliação que faz da política do Governo? Acha que o Governo tem gerido bem esta crise, com tanta austeridade?
Abstinha-me de comentar a posição do Governo. Diria que é óbvio que o poder político não foi capaz de ler os sinais relativamente ao que se estava a passar em termos de economia mundial. E o que aconteceu foi que Portugal alegremente caminhou para o abismo. Não foi capaz de verificar que estávamos a perder produtividade, competitividade, o custo estava a subir mais do que nos outros países. E obviamente, pelos dois choques de deslocalização que aconteceram nos últimos anos, Portugal acabou por ficar nesta situação em que não produz o suficiente para aquilo que consome. Quer o Governo seja este, ou seja outro, alguma coisa teria que ser obrigatoriamente feita para corrigir a situação. Não há outro caminho Ninguém pode consumir mais do que produz.

Doce

“A mesma confiança. Mas doce porque eles são uma empresa do caraças. Mesmo!”. E foi isto que a minha amiga, que me conhece muito bem, me disse antes de ir para a entrevista. Ela tinha razão – não conhecia o entrevistado, aliás, não me lembro de me ter cruzado com a empresa ao longo destes anos todos -, oxalá tivéssemos muitos assim. Mas, do meu ponto de vista, preferia que ele fosse pessoa de se exceder, mas nada, nadinha, nem um bocadinho, nem quando se tratava de elogiar… (os mega-suspiros são do mês passado, em Borough Market, não lhes toquei, demasiado doces para mim 😉

Artur Santos Silva: “Nunca senti a presença do Estado angolano”

Entrevista publicada no Dinheiro Vivo
Foto de Diana Quintela

Artur Santos Silva, 71 anos, natural do Porto, casado, quatro filhos, cinco netos, banqueiro. Fundou o Banco Português de Investimento (BPI) há 30 anos, do qual é presidente do conselho de administração, e há poucos meses aceitou um desafio diferente, a presidência da Fundação Calouste Gulbenkian. Por isso, passa a maior parte do tempo em Lisboa. A entrevista ocorreu na sua casa de férias, perto de Viana do Castelo, onde passa muitos fins de semana e o agosto, em família.

As férias são propícias a balanços. Qual a avaliação que faz do país e o que é que o preocupa?
O mais importante é reconstruir a esperança no futuro. O país fez um trajeto de sucesso entre meados dos anos 80 e o final do século xx, sentíamo-nos uns vencedores. A primeira década deste século foi muito difícil – o país praticamente não cresceu – e os últimos dois anos foram piores. É fundamental que o país redescubra a esperança, que acredite nele próprio, que esta tragédia, que é o desemprego, que nunca foi tão alto, seja devidamente contrariada e que o país volte a um caminho de crescimento.

Não se vê luz ao fundo do túnel.
Sim. Uma pré-condição está atingida – a recuperação de uma certa credibilidade externa. Assumimos compromissos [com a troika] e é fundamental cumpri-los. O trajeto de mais de um ano mostra que o país cumpriu grande parte dos compromissos assumidos. Neste momento, a Europa e o próprio FMI estão já convencidos de que uma austeridade muito séria acaba por ter resultados contraproducentes, sobretudo do lado das receitas fiscais. Não havendo crescimento e com desemprego há consequências sérias para as receitas e para as despesas do Estado. O país está em condições de, na próxima avaliação, tentar conseguir melhorar o caminho do futuro.

Pedir mais tempo, mais dinheiro?
A Europa está numa situação de recessão, ou de não crescimento económico, e de aumento do desemprego. Isto não era esperado, como também não era esperada uma situação de praticamente intervenção externa em Espanha, com o que aconteceu no sector financeiro. Há uma envolvente externa que justifica determinados ajustamentos. E há lições a retirar destas políticas porque se o doente não recuperar, são os médicos e as receitas que falham. Espero que haja condições para discutir melhor o nosso caminho.

Mas quando fala de ajustamento, o que deve ser feito?
Os resultados conhecidos deste ano mostram que, provavelmente, sem receitas extraordinárias não recorrentes, será muito difícil atingir a meta do défice. Já tivemos uma redução brutal do ano passado para este, pelo que é relevante que se veja que deve haver uma extensão do prazo de ajustamento. Devemos continuar a reduzir, sobretudo olhando para o que seria o défice sem as receitas não recorrentes.

E mais dinheiro?
Não, mas houve um lapso grande no programa: certas empresas públicas que tinham défices estruturais crescentes e precisavam de ser financiadas foram-no pelo sector bancário, com sacrifício para a economia. Teria sido bom que o programa tivesse tido uma fatia para o financiamento destas empresas. O maior defeito do programa foi este. Para o futuro, tudo vai depender de o país conseguir ir aos mercados em 2013.

Qual é a sua expectativa?
Acho que é muito difícil, mas concordo com o Presidente da República. É muito importante que o BCE assuma o seu papel.
Essa disposição parece existir, mas depois não acontece nada.
É verdade. O Conselho Europeu decidiu certas coisas, mas no dia seguinte houve logo países a levantar questões. Depois, Mario Draghi veio acalmar os mercados dizendo que tudo será feito para resolver os problemas, mas depois surgem logo oposições sérias da parte da Alemanha. Mas os mercados perceberam que, se os países que têm problemas os assumirem de forma clara e encontrarem respostas, haverá uma intervenção do BCE. Portanto, Portugal e a Irlanda, que têm programas e estão a cumprir, poderão beneficiar da intervenção do BCE.

A Grécia está a prejudicar Portugal e Irlanda?
Em relação à Grécia, tem de se assumir que é um caso muito especial. Não é possível deixar a Grécia ajoelhar.

Já ajoelhou.
É preciso levantá-la. O projeto europeu não é compatível com ausência de solidariedade. As receitas não resultaram, tiveram um impacto muito mais negativo do que o esperado. Por outro lado, os gregos também não souberam responder adequadamente às exigências aceites. Mas houve um erro: a Grécia é um pequeno problema em termos de PIB da União Europeia.

Bem mais pequeno do que Espanha ou Itália.
Tinha sido fundamental travar a crise de confiança em relação à Grécia, com um programa exigente, mas realista. E é fundamental encontrar um programa de reembolso realista para toda a dívida grega. Ou se dá mais tempo e juros mais baixos ou reduz-se o valor do capital. Se isso não está previsto nos tratados, é preciso ver que a história não se escreve para sempre, tem de se ajustar.

Portugal conseguirá financiar-se nos mercados em 2013?
Será difícil, sobretudo, se o BCE não estiver a comprar dívida soberana e a sustentar a sua evolução. Mas ainda é possível. A Irlanda está a fazer um percurso muito positivo e é dado como certo que conseguirá voltar plenamente aos mercados, já está a emitir dívida de médio, curto prazo. Temos vindo a fazer um percurso quase igual à Irlanda.

E se não conseguirmos?
Já foi dito que há disponibilidade para apoiar Portugal. E aí é fundamental que o caso da Grécia, com perdão da dívida do sector privado, não volte a repetir-se. É fundamental que nessa nova ajuda, não se verifique qualquer perda para quem investiu em dívida pública portuguesa.

Quanto ao Governo, qual a avaliação que faz deste primeiro ano?
Em relação a alguns aspetos da política económica e financeira, fizemos o que devia ser feito, cumprimos com o que nós tínhamos obrigado. Ao nível das reformas estruturais, não se vê ainda uma reforma séria na administração central do Estado.

O que quer dizer com reforma?
Reduzir custos na máquina do Estado. Há pessoas a mais e tem de se encontrar solução. O Estado tem de fazer o que os bancos fizeram quando precisaram de reduzir custos- negociar reformas antecipadas. Os custos foram muito relevantes, mas a prazo foi uma ajuda.

O Governo não tem dinheiro.
Isso tem de ser conseguido e analisado como um custo não recorrente. E, por outro lado, ainda existem processos ineficazes que têm de ser corrigidos. Em relação às grandes funções do Estado, não sinto, por exemplo, que existam avanços na Justiça, o que tem custos brutais.

Então a política do Governo é a da troika, de controlo do défice?
Essa condicionante é enorme e é muito difícil fazer coisas com este espartilho brutal. O país tem respondido muito bem. O sector produtivo deu sinais muito importantes de vitalidade, de dinamismo e de capacidade de adaptação. Apesar dos níveis elevadíssimos de desemprego, o país mostra que é competitivo. O crescimento das exportações tem abrandado por causa da crise europeia, mas temos tido diversificação de bens exportados, aumento das receitas com serviços exportados e novos mercados. Os resultados na frente externa são notáveis. O equilíbrio externo só estava previsto mais tarde e antecipámos a sua correção. Mais sério do que o défice ou a dívida pública é o problema da falta de competitividade externa e, nesse plano, a resposta tem sido positiva.

Sendo banqueiro, sente diariamente o arrefecimento do investimento, a falta de confiança e o pessimismo dos empresários?
Nas obras públicas e construção civil é evidente que se está a viver uma situação muito difícil. Depois, todas as atividades relacionadas com o consumo interno caíram. As pessoas perceberam que estavam a gastar demais. Também no sector de serviços, restaurantes, cafés, se sofre. Já o turismo e a prestação de serviços a estrangeiros continuarão a sofrer bem menos. Os empresários que trabalham na frente externa e nos bens transacionáveis estão bem.
Mas tudo o que falou já é uma fatia enorme da economia.
Tudo o que são empresas que produzem bens transacionáveis, que evitam importações ou contribuem para aumentar as exportações estão a resistir muito bem. Agora, sinto que, com esta envolvente externa, os empresários procuram substituir mercados.

Sente o desespero no dia a dia?
Não tenho dúvida de que quem está nos sectores mais expostos deve ter situações muito difíceis. Noto, apesar de tudo, um crescimento do crédito problemático muito menor do que em Espanha, já que o nosso país não tem uma bolha imobiliária. Tenho sinais de que a situação não irá piorar muito mais e que nos estamos a aproximar de um ponto de viragem.

O crédito malparado está a comportar-se melhor?
Tenho visto uma evolução menos desfavorável.

Passos Coelho tem sido um bom primeiro-ministro?
Tem sido positivo no que respeita ao cumprimento do acordo de ajuda externa. É muito difícil fazer tendo esta limitação financeira. Mas preocupa-me o futuro do ensino superior. Os cortes devem ser mais seletivos. O mesmo na Ciência e na Cultura. Naquilo que eram as questões fundamentais a resolver no curtíssimo prazo, Passos Coelho assumiu uma atitude correta e a resposta foi positiva. Mas é fundamental criar um clima de esperança.

Um dever do primeiro-ministro.
Claro. É fundamental uma melhor comunicação dos resultados e do que está a ser feito. Temos de assumir metas devidamente quantificadas, prestar contas e criar esperança. A redução do desequilíbrio externo, por exemplo, não tem sido suficientemente enfatizada.

Mas as metas e o calendário estão definidos pela troika.
Há uma outra série de domínios em que o Governo deveria assumir objetivos devidamente calendarizados. Coisas até muito simples. Já em relação às reformas, tem havido um défice de comunicação. Muitas vezes só quando é dito que não se fez nada é que se explica o que foi feito. Uma boa comunicação também ajuda a alterar o clima psicológico. Para isso, antes de virem troikas e de serem apresentados os resultados dos exames, há que saber comunicar os objetivos. Há um défice na criação de esperança nas pessoas.

Concorda com o chumbo do Tribunal Constitucional ao corte dos subsídios na função pública?
Foi um erro, uma interferência na capacidade do poder político para resolver problemas. É indiscutível que os trabalhadores da função pública têm aspetos favoráveis que mais ninguém tem.

São privilegiados?
Sim, sobretudo em relação à segurança no emprego e na progressão de carreira. Em alguns aspetos estão melhor do que os restantes trabalhadores, pelo que é natural que haja sacrifícios que os afetem mais.

E agora, faltam dois mil milhões de euros. Mais austeridade para compensar a falta desse receita?
Este ano o problema não se coloca e isso é importante. Em relação ao futuro, a austeridade será a mesma, já que o Governo terá de resolver o problema com outros recursos. A não ser que haja um gradualismo maior nas metas do défice. Se nos derem mais tempo, é natural que mais medidas não sejam necessárias.

O ministro da Economia foi um erro de casting?
Não concordo com o modelo de constituição do Governo. O ministro da Economia tem um conjunto de responsabilidades desajustado. E o mesmo na Agricultura e Ambiente. São dois ministérios sobredimensionados. Era preciso corrigir isto na primeira oportunidade.

E as pessoas são as adequadas?
O ministro da Economia devia ter uma preocupação maior em comunicar. Tem estado ausente, mas acho difícil julgar pessoas concretas.

O caso de Miguel Relvas beliscou o Governo?
Sim. Num momento destes, em que pedimos muitos sacrifícios às pessoas, temos de acreditar que quem nos governa está a fazer as coisas o melhor possível e com grande isenção. A história da licenciatura do ministro não enobrece a pessoa. E abalou a credibilidade do Governo.

O ministro tem condições para se manter em funções?
Espero que este problema seja resolvido prontamente.

O que quer dizer com isso?
Chega, não quero dizer mais nada, não preciso de ser mais explícito.

Com esta crise, as pessoas alteraram os seus comportamentos. Sentiu isso na sua vida pessoal?
Sou privilegiado e sofro menos do que outras pessoas, mas passei a ter mais preocupação com os meus comportamentos. Se gostava de ter um quadro, penso duas vezes. Não estamos a falar de coisas essenciais, nas quais, felizmente, não fui beliscado. Mas penso duas vezes nos meus comportamentos, já que as coisas vão ser mais complicadas.

Teme pelo futuro dos filhos e netos?
Claro. Tenho uma filha que esteve desempregada porque trabalhava num banco que foi comprado por outro, estrangeiro, e que ao fim de dois ou três anos resolveu despedir todas as pessoas que tinham origem no banco comprado. Foi uma preocupação, mas ficou resolvido porque se encontrou outra saída profissional. Em relação à família, procuro que os meus netos tenham a melhor educação possível, porque essa é a melhor maneira de se defenderem.

A melhor saída é no estrangeiro?
Espero que haja condições para ficarem em Portugal. Gostaria muito que os meus netos se fixassem cá.

Quantos netos tem?
Cinco. O mais velho tem dez anos e o mais novo, dois.

Já sentiu a necessidade de ser mais discreto por ter dinheiro?
Fui sempre relativamente austero nos comportamentos. Não tenho de esconder nada, sempre defendi que, num país com muita desigualdade, a utilização do dinheiro deve ser muito racional. Não tem sentido destruir dinheiro. Devemos, neste momento, ser mais solidários, mas não vejo razões para alterar os meus comportamentos, preocupado com juízos de terceiros.

O BPI recorreu à ajuda do Estado e, por isso, haverá corte dos salários dos administradores. Já sofreu esse corte?
Já, desde julho. Nos administradores não executivos, como é o meu caso, foi um corte de 50%. Felizmente, tenho outras fontes de rendimento.

Concorda com essa medida?
Tem uma carga demagógica, mas compreendo. Tendo sido necessária a ajuda do Estado, temos de nos sujeitar a um conjunto de regras. Deveria ser de outra maneira, mas, às vezes, é bom arranjar umas medidas que sirvam de sinal. Não é o melhor caminho, mas compreendo e aceito.

O BPI pretende antecipar o reembolso da ajuda do Estado?
O motivo pelo qual precisámos de ajuda é um absurdo. Sofremos mais com a dívida portuguesa e das autarquias. E as regras, ainda por cima, são rígidas e estáticas. O Estado reembolsou mil milhões de dívida em junho, mas é como se isso não tivesse acontecido. Hoje, já teríamos entre 600 e 700 milhões a menos de necessidades. Espero que as exigências sejam ajustadas com o passar do tempo e com a alteração das circunstâncias. Isso permitiria reembolsar o Estado. Mas, sobretudo, espero que estas exigências desapareçam assim que tivermos um BCE com as mesmas preocupações do que o Banco de Inglaterra, o Banco do Canadá, o Banco do Japão e a Fed, que são não só defender a moeda mas também a dívida pública.

Concorda com a crítica de que a banca não está a ajudar a economia?
Posso falar pelo BPI. Fomos o primeiro banco a anunciar linhas de crédito de montantes significativos para todos os segmentos das empresas e estamos a ajudar a colocar dívida das grandes empresas. O BPI está com 107% de relação entre crédito e depósitos, quando o objetivo indicativo para o final de 2014 é de 120%. Gostaríamos muito de estar a conceder mais crédito à economia, mas a procura é baixa. A razão principal é essa. Mas, parece-me muito positivo que o Governo tenha mantido mecanismos de apoio às empresas, que limitem o risco dos bancos.

O BPI assistiu a movimentações na sua estrutura acionista. Os espanhóis do La Caixa e Isabel dos Santos reforçaram e o Itaú saiu.
O Banco Itaú, na reformulação que fez da sua estratégia, entendeu concentrar-se, sobretudo, na América Latina. Desinvestiu em Portugal, lamento, mas a vida é assim.

Entretanto, reforçaram os espanhóis e os angolanos.
O La Caixa é a maior instituição bancária em Espanha, é muito bem gerido e, por isso, é um excelente parceiro para ajudar o BPI nos desafios que tem pela frente. A eng.ª Isabel dos Santos também reforçou, o que mostra que acredita no BPI e no seu futuro, o que também é positivo. Por outro lado, é acionista da Unitel, nosso parceiro em Angola.

As alterações geraram instabilidade?
Houve a saída de um acionista, uma situação que foi resolvida pelos acionistas existentes, o que é extremamente positivo. O aumento de capital, ao contrário de outros, não precisou de tomada firme porque os acionistas o asseguraram. Temos na estrutura acionista três instituições relevantes. O La Caixa, que é o maior acionista da Repsol, da Telefónica, da Abertis, das Águas de Barcelona, entre outras grandes empresas. A Allianz, que é dos maiores grupos seguradores do mundo; e Isabel dos Santos.

Como é que vê o enorme interesse dos angolanos em Portugal?
É natural, a língua é um fator fortíssimo de aproximação. E a nossa presença em Angola, apesar de a saída ter sido traumática, deixou elementos afetivos fortes. Vejo isso como muito positivo. E é uma porta de entrada na Europa.

A possibilidade de um banco português passar a ser controlado por angolanos preocupa-o?
Importante é que os bancos portugueses sirvam a economia da melhor forma. Para apreciar a idoneidade dos investidores e a estabilidade do investimento há o Banco de Portugal.

É a idoneidade que tem de ser analisada, não a nacionalidade?
Claro. E a estabilidade do investimento, porque é desejável que um grande acionista seja estável.

Isabel dos Santos é filha do presidente de Angola. A presença do Estado angolano não coloca problemas?
Até à data não tem colocado problema nenhum. A gestão do banco atua com a maior independência. Não tem havido qualquer comportamento menos correto de nenhum acionista.

Ainda não sentiu o Estado angolano dentro do seu banco?
Não, de maneira nenhuma.

A gestão sofreu alguma alteração?
Não, nem está previsto.

Sente que existe uma disputa pelo controlo do BPI, entre o La Caixa e Isabel dos Santos?
Não. Num caso, trata-se de um acionista institucional, no outro, é um investidor privado, com a sua carteira de investimentos. Sobre acionistas, não falo, mas posso assegurar que o banco atua com a maior independência.

Em que fase está do seu mandato?
Termina no final de 2013.

A sua intenção é continuar, agora que assumiu também a presidência da Calouste Gulbenkian?
A intenção, neste momento, é cumprir o meu mandato. O resto não depende de mim, mas dos acionistas e das circunstâncias.

Não pensou sobre o assunto?
Não tenho de pensar sobre o assunto, o que tenho é de cumprir o mandato, o que faço com muito gosto.
Algumas empresas portuguesas estão prestes a sair de bolsa – a Cimpor e a Brisa – e a ser compradas por estrangeiros.

A perda de propriedade e a falta de grupos portugueses é preocupante?
Tenho pena que não haja em Portugal estruturas empresariais que assumam um papel relevante nas principais empresas. Lamento, mas não houve acumulação de capital. É o custo de termos tido uma Revolução em vez de uma reforma. Foi um grande erro termos nacionalizado muitos sectores. E quando as empresas foram privatizadas, os grupos portugueses que se interessaram alavancaram-se demasiado.

Temos um défice de empresários.
Não digo isso, mas não houve uma acumulação de capital que lhes permita corresponder às oportunidades que surgem.
Chineses na EDP e na REN, angolanos na Zon e nos bancos, brasileiros na Cimpor. Uma inevitabilidade?
O investimento estrangeiro é desejável. É importante que as empresas tenham portugueses no seu capital, mas vivemos num mundo aberto e o que é importante é que haja investidores nessas empresas e que os reguladores atuem. As empresas devem ser geridas, na medida do possível, de acordo com os interesses portugueses e isso acontece quando os gestores conhecem o mercado e são pessoas ligadas à vida do país. Por outro lado, os reguladores devem exigir às empresas que cumpram uma missão de interesse pelo país. O país precisa imenso de investimento estrangeiro, que traga capacidade de gestão, mercados e tecnologia.

Assumiu a presidência da Gulbenkian em maio. A Fundação tem 1600 milhões aplicados. Como é que se gere este dinheiro no meio de uma crise?
Numa situação de grande instabilidade, temos sofrido as vicissitudes do mercado, mas a Gulbenkian, como qualquer fundação, não é um investidor com movimentos bruscos de curto prazo. Essa é a razão por que tendo partido de um património muito modesto hoje já estamos com 3000 milhões de euros. E depois, temos os interesses no petróleo e no gás que, nesta incerteza, se têm valorizado bastante e os rendimentos têm sido muito significativos.

O que é que gostava de poder fazer na Fundação?
Estou a chegar. A Fundação tem uma política que é, sobretudo, a de investir nas áreas da Cultura, Educação, Ciência e Charity (expressão do seu fundador). A área onde, num momento como este, temos de intervir mais é na Charity, sobretudo na inovação social e na solidariedade social, na mobilização da sociedade civil para problemas novos. É aí que tem havido uma aposta muito forte.

Como é que consegue conciliar a presidência do BPI com a da Fundação?
Quando me convidaram para a Fundação disse que só poderia aceitar se me mantivesse no banco.

Consegue dar conta das duas coisas, sem desinvestir no BPI?
Consigo. Reduzi muito a intervenção em outras instituições, como a Universidade de Coimbra e a Casa da Música. A Fundação Gulbenkian é, de facto, uma função muito exigente e tenho procurado conciliar sem prejuízo de nenhuma.

O BPI precisa de si?
Tenho um contributo a dar ao banco e assumi esse compromisso. E sinto-me muito ligado à instituição porque fui o seu fundador primeiro e promotor.

É o pai do banco?
Não, mas vejo-me muito bem nas atuais funções.