Não preciso deste Governo para nada

Opinião

Artigo publicado em Dinheiro Vivo

Os dias em que o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulga os dados oficiais do desemprego em Portugal são bons dias para deitar tudo cá para fora, para desabafar, ainda por cima com razão.

No último trimestre de 2012, estavam no desemprego quase um milhão de portugueses. Muito mais do que 16,9%, o número oficial. Desde que Passos e Gaspar e a Troika assumiram o poder, em meados de 2011, Portugal ganhou quase 250 mil novos desempregados. O desemprego afecta 40% dos jovens com menos de 25 anos e 13,4% dos licenciados, e 56% do total está desempregado há mais de um ano.

Dirão que, por isto tudo, se temos um quarto do país no desemprego, é mais que natural que se critique o Governo, sobretudo no dia, ou nos que se seguem à divulgação dos dados dos desemprego, em que ainda está tudo muito quente.
E acrescentarão ainda que será também natural que depois a raiva passe e dê lugar à tomada de consciência de que não há alternativa, de que o Governo, como foi com os nossos pais, faz o melhor por nós, de que as medidas são duras, mas necessárias, de que há que voltar ao dia-a-dia, trabalhar muito e ajudar o país a sair desta crise.

Ora, é aqui que eu já parei há algum tempo, e volto a parar sempre que ouço Passos Coelho falar. Ontem, tornou-se ainda mais claro que não preciso deste Governo para nada. Não preciso de um primeiro-ministro e de um Governo que pensa não dever ter nenhum papel ativo no combate ao desemprego, na criação de emprego e no crescimento económico. Não preciso de um Governo que se limita a constatar a catástrofe e admitir erros nas projeções. E muito menos preciso de um Governo que quando faz alguma coisa, por pouco que seja, falha, talvez por falta de convicção na importância do Estado Social e das políticas públicas. Infelizmente, o Impulso Jovem apenas existe para provar o quão desnecessário este Governo é.

E é isto que aqui partilho, publicamente, no meu espaço de opinião: não preciso, não quero este Governo, não quero estas políticas, não quero entregar a este Governo a reforma do Estado Social.

Acabei agora mesmo de fazer as contas

Opinião

Artigo de opinião publicado em Dinheiro Vivo

Acabei mesmo agora de fazer as contas ao meu salário com as novas tabelas de IRS e é verdadeiramente deprimente. Poupo-vos às minhas queixas, pois cada um já tem as suas, mas é útil para a discussão que se segue dizer apenas que, mesmo com duodécimos, o meu rendimento mensal cai, aliás, que nos últimos três anos tem sido sempre a cair.

Faço, por isso, parte dos muitos que são afectados pelo “enorme” aumento de impostos de Gaspar e Passos Coelho, daqueles a quem o Governo vem repetidamente avisando sobre a urgência de reformar, que é como que diz cortar o Estado Social, a única solução para, no futuro, aliviar a carga fiscal de todos os portugueses.

Quer pagar menos impostos, quer?! Então já sabe, a única alternativa é ter menos Estado Social, é o Estado pagar menos subsídio de desemprego e por menos tempo aos desempregados, é o Estado reduzir as pensões aos reformados, é o Estado aumentar as taxas moderadoras das urgências nos hospitais e as propinas de acesso ao ensino superior.

É isto que não param de repetir, e isso é desonesto. Há alternativa, há sempre alternativa, ao contrário do que este Governo, com o seu fundamentalismo ideológico, nos quer fazer crer.

Procure-se, primeiro, encontre-se, primeiro, toda a má despesa que há neste Estado, elimine-se, primeiro, todo o tipo de má despesa, que existe e não é pouca, reduza-se, de facto, o Estado, mas mantenha-se, melhore-se o acesso tendencialmente gratuito à Saúde e à Educação, mantenha-se o Rendimento Social de Inserção para quem verdadeiramente precisa, pague-se subsídio de desemprego e reformas aos mais velhos, mantenha-se, melhore-se, o Estado Social.

E fiscalize-se, eliminem-se as ineficiências, racionalize-se, reforme-se, melhore-se, construa-se – Estado e privados juntos – um melhor Estado Social. Ao contrário do que nos querem fazer crer, O Estado não tem que ser um predador. É com todo o gosto que pago os meus impostos, para ter menos Estado, mas um melhor Estado Social.

Sejam honestos e mostrem-me, primeiro, as alternativas – há sempre alternativa! E ponham a economia a crescer, que é o que faz falta, interrompam esta estúpida austeridade, peçam mais tempo à troika para atacar um monstro de várias décadas, façam-se à vida, façam por nós, e se não forem capazes porque não acreditam, digam-nos, porque não foram eleitos para isto, não têm mandato para isto.

O que a epidemia de gripe nos EUA tem a ver com a refundação do Estado Social?

Gripe

Enquanto em Portugal se discute o gordo e generoso Estado Social, nos Estados Unidos critica-se a sua quase inexistência, desta vez, por causa de uma violenta epidemia de gripe, que já matou centenas de pessoas.

Sondagens mostram que mais de um terço dos trabalhadores norte-americanos não tem qualquer subsídio de doença, sendo que em alguns sectores, como na restauração, essa percentagem sobe para quase 100.

Assim, como há que pagar contas, é comum as pessoas irem trabalhar doentes, cheias de febre, tossindo e espirrando para cima do colega do lado. Caminho limpo para o contágio em larga escala.

Os poucos empresários que pagam aos trabalhadores os dias em que eles ficam doentes em casa são elogiados. Wise management, lê-se na imprensa norte-americana. E em vários estados surgem leis, ainda que muito limitadas, a impor a baixa paga em caso de doença.

Sim, não faz muito sentido ver as pessoas a morrer e mesmo assim obrigar os doentes a trabalhar.

A existência de subsídio de doença também permite medir o nível de desenvolvimento de uma economia. O magro Estado social norte-americano talvez conduza a mais crescimento, ainda que a relação entre menos Estado Social e mais crescimento esteja por provar, mas depois resulta nestas inexplicáveis situações em que pessoas cheias de gripe cozinham o almoços das outras.