Insensíveis, favor não ler

Aqui estou eu, mais uma vez, farmacêutica de serviço desta espectacular Farmácia. E desculpem se estou insuportável.

Trevo4Estrelas

Estou com um problema. Um daqueles problemas que sempre me disseram ser um erro que as pessoas maduras, independentes e inteligentes, como eu, jamais cometem. Não fazemos nada um sem o outro. Ou antes, não fazemos quase nada um sem o outro. Melhor ainda, fazemos algumas coisas um sem o outro, mas ficamos com aquela sensação estranha e muito pirosa de que nos falta alguma coisa.

Podem começar a vomitar, mas chegam a acontecer coisas tão ridículas, como o envio de vídeos do concerto para o que não foi.

Sempre me contaram que a convivência extrema é um comportamento a evitar, que passar muito tempo com a mesma pessoa, sem sair com amigos, sem visitar a mãe e a irmã sozinha torna o relacionamento chato. Porque depois ele passa a ser o único alvo das minhas reclamações, observações e objetivos, e vice versa. E garantiram-me, e eu quase acreditei, que isso acaba com qualquer espécie de amor.

Aqui estou eu, especialista em fins, para refutar esta teoria milenar. Aquilo que me fez, há uns tempos, telefonar à minha melhor amiga para me desencantar um voo Nova Iorque-Lisboa para a próxima hora, quando ainda faltavam 10 dias para o fim das férias, foi uma vontade incontrolável de me afastar, de estar com os amigos, a mãe, a irmã e a gata. Quando cheguei a casa, as janelas estavam todas escancaradas, como se me quisessem dizer ainda bem que voltaste.

Ainda hoje me espanto com esta brutal desafeição, que só se tornou clara num acordar nova-iorquino.Da mesma forma que, hoje, me assusto com a nossa interdependência. São gigantes as diferenças, mas nenhuma, garanto-vos, se aproxima dos habituais argumentos que sustentam a tese da importância das separações , como o tempo e o espaço, ou a falta de ambos.

É uma coisa mais simples, é o sentimento que me faz diferente. Podem expelir tudo o que ainda vos resta no estômago, mas ninguém será capaz de me convencer que não é o amor – e a coragem – a única razão que me faz querer, hoje, partilhar a minha vida, quase ao minuto.

A registar apenas o persistente boicote aos meus planos de um dia conseguir correr a ultramaratona, mesmo assim sempre compensados pela descoberta de maravilhosos spots para corridas mais curtas. Entretanto, já tenho bilhete para ir ver Clã com as minhas amigas do coração. Lá está, é como vos digo, sempre tudo uma questão de afetos.

Uma garfada de cada vez

Hoje voltei a esta grande Farmácia
Entendem-me?!

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Passou um ano. Precisamente. E percebi que a minha adaptação a isto de partilhar espaço e vida com um homem se tornou bem mais simples. Deixa a garrafa do azeite aberta, eu a seguir tapo, não baixa (raramente) o tampo da sanita, eu depois baixo, deixa as gavetas da roupa abertas, se passo por lá, fecho-as eu, não faz mal. E nem digo nada. Só saio a ganhar.

Primeiro, porque assim não me chateio, não gosto de repreender (muito menos de ser repreendida). E eu valorizo mesmo quando as coisas aparecem feitas sem ter que me queixar, como se fosse tudo perfeito. Segundo, fico com créditos. E só eu sei (e quem vive comigo) como sou perita em não fechar o saco do pão, até o dito ficar em pedra de seco, ou em deixar o meu montinho de roupa ao fundo da cama, mesmo do lado dele. E, por último, ganho toda a sua boa vontade para fazer tudo por mim quando é verdadeiramente preciso.

Por exemplo, sempre detestei sentar-me à mesa para almoçar ou jantar. Só de pensar, perco a fome. O meu estilo sempre foi o de servir um prato (se for uma tigela daquelas para comer cereais, tanto melhor) e abancar no sofá, literalmente a pastar. O paraíso, então, é não servir mesmo nada e depois ir picando do seu prato, até me apetecer. Pronto, admito, que isso não é para qualquer um, mas hoje, passado um ano, já é uma realidade na nossa vida. Chegámos a um ponto tal em que, antes de preparar a sua própria tosta já me pergunta se prefiro presunto ou fiambre. Outra coisa: nos últimos 43 dias tenho vivido só com um braço, aliás, sem o braço direito, e posso dizer que nem uma vez bufou quando teve que preparar a minha papaia, ou as minhas papas de aveia com banana e borrifadelas de canela para o meu pequeno-almoço.

Acredito que a minha vida é tanto mais fácil quanto mais eu lhe facilitar a vida a ele. Parece simples, mas não é. Experimentem chegar ao final do dia, refastelarem-se no sofá e ignorarem aquele zumbido do Real Racing 3 mesmo atrás da vossa cabeça.

Matemática pura

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Hoje, sou a farmacêutica de serviço n’A Farmácia de Serviço, um dos blogs mais fixes ❤

Meti Nouvelle Vague para escrever este texto, um texto que não é bonito e que só é possível ser escrito alguns tempos depois de tudo começar, depois de sossegar o medo.

Há alguns meses, senti, pela primeira vez, um medo feio, mas verdadeiro, de envelhecer. Não foi quando fiz 30 anos, nem 40, foi quando percebi que me preparava para casar com um homem mais novo do que eu — 4.740 dias, mais precisamente.

Quando soube, já era tarde demais, mas pouco importa, porque, mesmo que tivesse sabido com toda a antecedência, nada seria diferente. Mas não me saía da cabeça uma conta simples: quando ele tiver 45 anos, eu já estarei a caminho dos 60 anos. E mais tarde, um dia, eu morrerei, provavelmente, mais cedo.

Todos nós já vimos, nem que seja nos filmes, histórias destas, e já todos ouvimos aquele blá blá blá do “amor não escolhe idades”, mas, garanto-vos que, quando é connosco, a coisa é um pouco mais aborrecida.

Não era o que os outros poderiam pensar que me chateava, porque, felizmente, sempre me borrifei para muitas convenções; também não era por insegurança, porque não é difícil perceber porque é que o meu marido se apaixonou por mim ;). Era só por causa destas malditas contas à vida.

Cheguei a chorar, nos momentos mais incríveis, com medo que a felicidade, um dia, acabasse. Um dia, achei que era mais justo (ganhei coragem) e contei-lhe. Não sei bem porquê, porque já antecipava a reação. Há lá maneira mais cor-de-rosa de ver o mundo do que a dos apaixonados?!

Foi a minha sogra, sem saber, que sossegou o meu medo. Com a sua naturalidade, quando nos disse que o que mais importava era que estivessemos felizes, e com a história da sua própria vida. A Laura — sim, eu trato por tu a minha sogra — ficou viúva, com dois filhos, aos 30 anos. Um cancro raro e fatal roubou-lhe a felicidade, em poucos meses.

Por aqui, e porque a idade traz outras coisas, continua a viver-se um grande amor, daqueles “para sempre”, ainda que com irritações pontuais à conta das primeiras rugas, que começam a misturar-se com a minha felicidade.

Sexo

Farmácia

Eu não conheço o Ricardo pessoalmente, mas somos colegas de Farmácia e ele escreve comócaraças. Ao desafio do nosso querido diretor Paulo Farinha para explicar ao Guilherme, de sete anos, o que é o sexo, escreveu a coisa mais espectacular que já li sobre o assunto. Vou guardar para quando for preciso.

«Como é que se explica a um miúdo de sete anos o que é o sexo? O Paulo Farinha tem destas coisas. Pela hora de almoço, telefona e pede-me cenas maradas. “Ele chama-se Guilherme”, disse-me. Ok, vamos a isso (…)» Leia o resto aqui.

Os meus, os teus e os nossos

José Gameiro
(José Gameiro, fotografado para o jornal i, em abril de 2010)

Receita aviada na Farmácia de Serviço

Eu costumo apaixonar-me pelos meus entrevistados, posso nunca mais voltar a vê-los, mas nunca mais os esqueço. Aconteceu isso com o psiquiatra José Gameiro. Entrevistei-o, há uns três anos, quando ainda trabalhava no jornal i, só o vi uma vez, falámos durante um par de horas, mas eu, pelo menos, sinto que foi muito mais – cheguei até a ligar-lhe, bem mais tarde, num momento de aperto. E, ultimamente, tenho-me lembrado dele, por dois motivos. Por algumas coisas que ele me disse na entrevista, que pode ser relida aqui, e por causa do título de um livro seu, “Os Meus, os Teus e os Nossos”.

O motivo desta recordação são os filhos, a minha, o dele, no fundo, os nossos. Admito que, quando conheci o meu marido respirei de alívio quando soube que ele já era pai, ainda por cima de um rapaz de quase oito anos. Eu tinha uma rapariga, um pouco mais velha, por isso, havia aqui uma espécie de simbiose perfeita. O facto de ele já ser pai, retiraria aquela pressão – normal, admita-se – sobre a relação, de um dia virmos a ter um filho comum. Ambos já conhecíamos esse amor-maior, pelo que nos podíamos dar ao luxo de dizermos, um ao outro, que nos amamos mais do que qualquer outra coisa nesta vida, porque ambos sabemos que isso só é verdade depois do amor pelos nossos filhos. E há mais. A família ia aumentar, passaríamos a ser quatro à mesa, o Natal deixaria de ser só meu e da minha filha, um ano em Londres, outro em Amesterdão, outro não se sabe muito bem onde. No final, eu sabia, ganharíamos todos na liga dos afetos.

Eu antecipava alguns problemas, claro, não sou ingénua e, em tempos, a minha filha já tinha feito a vida negra a um ex-namorado meu. Em primeiro lugar, iríamos juntar duas pessoas que, ao contrário de nós, não se tinham apaixonado e não pediram para viver juntas. Iríamos pô-las a disputar o mesmo espaço, o mesmo sofá, a mesma televisão, os mesmos jogos, e isto tudo, com os respetivos pais a assistir e a intervir e a tentar a imparcialidade em causa própria. Podem imaginar, não podem?! E depois vieram as férias, e os ciúmes, as diferentes formas de educar, os fins de semana da minha filha com o pai e os do filho dele com a mãe, e as birras.

José Gameiro tinha razão quando dizia que, nestas relações, neste novo tipo de famílias, marido e mulher não têm aquele tempo, sozinhos, de adaptação, entram imediatamente na confusão. Cá em casa, já nos demos conta disso, mas também, de que cada um de nós tem, agora, três amores: um grande-grande-grande, um grande-grande e um grande. ❤

Sim, ama-se alguém que não ouve a mesma canção

FotoLuadeMel

Hoje sou a Farmacêutica de Serviço nesta milagrosa Farmácia

Nem tudo é um mar de rosas, nisto do casamento (a lua de mel foi mesmo uma delícia, obrigada, como podem ver pela fotografia em cima). Já tivemos um ou dois stresses, admito. Além da inabilidade do meu marido para fazer arroz (a única), que já provocou um diferendo e a promessa, dele, de nunca mais se dedicar ao dito, a grande controvérsia entre nós é a música. Para ele, o meu som é quase todo “muito down”, para mim, aquilo que ele ouve é sempre “panados com pão”, não sei se me faço entender?!

Na festa de casamento, só houve música porque o DJ já fazia parte da lista dos convidados – do meu lado – e porque, é um facto, o bolo dos noivos já tinha sido entregue ao amigo do meu marido, o querido patisseur Luís. E por casa, ganham os meus 124 iPods, espalhados por todo o lado, a minha pré-adolescente viciada em hits e, há que dizê-lo, a tolerância dele para com o meu som e para com a minha grave inaptidão para a eletrónica.

Não temos uma música da nossa vida (ainda!), nem uma playlist da nossa existência. É claro que os nossos corações batem por algumas bandas, como esta, por exemplo, mas não, não somos do género de casal que se conhece, apaixona-se e decide casar-se também porque ouve as mesmas músicas e vê os mesmos filmes.

Cheguei a pensar nisso, mal constatei as diferenças, mas se rápido pensei, mais rápido deixei de pensar. Por todas as razões amorosas e apaixonadas, que evito aqui escrever para não vos saturar, pelas vantagens evidentes de quem passa a receber novas referências musicais, e não só, mas sobretudo, porque percebi, entretanto, que mais importante do que partilhar a vida com alguém que lê os mesmos livros, é fazê-lo com alguém que sente da mesma maneira.

Lamento contrariar Carlos Tê e Rui Veloso, mas sim, ama-se alguém que não ouve a mesma canção.

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